Olhar de Cinema (curtinhas): Crime Culposo / Rolê – Histórias dos Rolezinhos / Esqui

Crime Culposo

Como filme revisionista que resgata um incidente traumático acontecido dentro de um cinema incendiado no final dos anos 1970 no Irã, Crime Culposo é um ótimo exemplo de como investigar o passado de modo original e sagaz – no Irã totalitarista, fazer isso sem parecer acusatório é precioso. Isso porque o filme embaralha registros de diversos personagens e sobrepõe camadas ficcionais (uma encenação recente que seria como uma reconstituição dos fatos, mais o filme dentro do filme) para dar conta das tragédias históricas do país, relacionando o contexto cultural e cinematográfico (o filme é cheio de pistas cinéfilas que devem fazer mais sentido para os entendedores do cinema clássico iraniano) com as mazelas políticas. No entanto, na sua construção labiríntica, o filme parece fazer questão de estender sua duração com os movimentos dos personagens que mais reforçam um jogo de mistérios e intencionalidades dúbias do que faz avançar a narrativa. Shahram Mokri é o mesmo diretor do longa Peixe e Gato, uma espécie de suspense filmado em um único plano-sequência. São filmes completamente distintos tematicamente, mas reveladores de um cineasta que gosta de um tipo de malabarismo cênico, dessa câmera que passeia pelos personagens, alonga o tempo e redimensiona a noção de espaço. É muito gratificante de se ver, mas em alguma medida é também exercício de exibicionismo quando a forma em si parece mais importante do que o conteúdo e mesmo do que os resultados de tais elaborações de encenação.

Crime Culposo (Enayat-e Bi Deghat, Irã, 2020)
Direção: Shahram Mokri
Roteiro: Nasim Ahmadpour e Shahram Mokri


Rolê – Histórias dos Rolezinhos

O filme segue na linha do didático ao apresentar a prática dos “rolezinhos”, existentes desde o início dos anos 2000, mas que ganhou maior repercussão midiática a partir de 2013 e dos casos de racismo e violência que se ligam a eles pelo choque de classes dado nesse ambiente castelar e sinônimo de consumo que são os shopping centers. O longa cumpre seu papel social, resgata histórias e indivíduos que estiveram na efervescência desse movimento e, com isso, amplia as discussões raciais até onde elas fazem parte de um raciocínio estrutural básico e facilmente assimilado por aqueles mais ligados às pautas de esquerda. Por outro lado, avança pouco em termos de tensionamentos mais radicais ao escolher ouvir apenas o lado das “periferias”. É uma opção super válida, interessada em dar voz àqueles que historicamente foram silenciados e impedidos de ocupar certos espaços sociais e de comunicação, mas perde-se aí a chance de investigações mais complexas, que seriam ajudadas por um certo recuo histórico. No entanto, se ganha com isso mais oportunidades para reforçar a continuidade das manifestações das subjetividades negras.

Rolê – A História dos Rolezinhos (Brasil, 2021)
Direção: Vladimir Seixas
Roteiro: Vladimir Seixas


Esqui

É louvável que um filme que retrate uma paisagem turística amplamente conhecida da América do Sul e de imagens tão “cinematográficas” como Bariloche, consiga olhar para um outro lado da localidade e seu entorno ao redor das montanhas da Patagônia argentina. O diretor Manque La Banca parte do mais exótico e usual, a prática do esqui como chamariz da região, mas o faz em grande medida através daqueles que trabalham como guias e instrutores, muito deles moradores das vilas que circundam o lugar. Com isso, o primeiro choque de realidade é a vista da periferia de Bariloche em que as casas pobres e a paisagem decadente contrastam com a neve e o vislumbre do lago de Nahuel Huapi. O nome tem origem indígena não por acaso, e isso é fundamental para a encarada que o filme dá na História e, mais ainda, naqueles que contam a História e de como o fazem, vide o genocídio dos povos nativos no passado. Os intuitos são nobres e o desfecho do longa eleva bastante esse tom de crítica social, mas o filme investe por muito tempo numa variedade de registros e formatos, quase como experiências visuais distintas, não tão coesas assim, por vezes minando sua força na tentativa de uma criação multifacetada.

Esqui (Esquí, Argentina/Brasil, 2021)
Direção: Manque la Banca
Roteiro: Manque la Banca

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