Maternidade precoce*
“Humanista” sempre foi um adjetivo ideal para caracterizar a obra dos irmãos Dardenne. Seus filmes são povoados de personagens atravessados por dilemas morais e situações limites. Não seria diferente com Jovens Mães, novo filme dos diretores que estreia na próxima semana nos cinemas.
Aqui, conheceremos um abrigo para garotas em situação de vulnerabilidades social e que estão grávidas ou tiveram filhos recentemente. O roteiro acompanha de perto o dilema de cinco dessas personagens. Jessica (Babette Verbeek) espera um bebê e tenta contato com a mãe que a abandonou quando ela era pequena. Perla (Lucie Laruelle), uma jovem negra, teve um filho recente com outro adolescente que sequer contou para sua família sobre a criança.
Ariane (Janaïna Fokan) quer dar seu bebê para a adoção, mas sofre pressão da mãe, com quem mantém uma relação conturbada por viver em um ambiente de violência doméstica e que deseja ficar com a criança e criá-la juntas, mesmo em um lar inadequado. Naïma (Samia Hilmi), por sua vez, desistiu de doar a filha para a adoção e se prepara para sair do abrigo e ir morar com a pequena em um novo apartamento como mãe solo.
Já Julie (Elsa Houben) acaba de chegar ao abrigo, depois de sair das ruas, mas ainda enfrentando a dependência química e sem consegue lidar com a responsabilidade de cuidar de uma criança.
Mais do que pensar no tema a partir de um problema coletivo, Jovens Mães prefere focar nos conflitos pessoais que essas adolescentes vivem, enfrentando a maternidade precoce, mas principalmente a disfuncionalidade de uma vida pregressa, o que pode levá-las de volta às ruas, às drogas ou à delinquência.
Muitas delas enfrentam o dilema de permanecer ou não com seus bebês, uma vez que precisam estabelecer minimamente uma estrutura familiar e laços de união para além das amizades mantidas dentro do abrigo e do apoio das terapeutas do lugar. Sua batalha é menos contra um sistema social desfavorecido – afinal, estamos falando de um país rico e atuante como a Bélgica – e mais com seus próprios demônios interiores.
Prestígio mantido
Muitos se surpreenderam quando Jovens Mães venceu o prêmio de Melhor Roteiro no último Festival de Cannes. Não porque o filme não merecesse, mas simplesmente porque os irmãos Dardenne são campeões de prêmios no dito festival. Historicamente, seus filmes sempre conseguiram lugar cativo na competição de um dos maiores eventos de cinema do mundo, fora as muitas láureas que já receberam no decorrer de sua longa trajetória.
Donos de duas Palmas de Ouro (Rosetta, em 1999, e A Criança, em 2005), os Dardenne chegaram a um invejável patamar em que não precisam mais provar para ninguém a competência e genialidade de seu trabalho. Há quem diga que eles não deveriam nem mais receber prêmios, outros que o vigor do seu cinema já não é mais o mesmo de há dez anos atrás.
Mas a verdade é que os diretores belgas seguem fazendo filmes temática e esteticamente muito coerente com o estilo que imprimiram nas últimas décadas, especialmente em se tratando de um cinema de viés social produzido na Europa.
É certo que alguns filmes recentes são bem mais fracos, quando não tiros no pé – é o caso do equivocado Tori e Lokita ou de filmes com roteiro frágil e preguiçoso como A Garota Desconhecida. Mas com Jovens Mães, os diretores voltam a seguir uma linha de nuances narrativas complexas, sem a necessidade de querer fazer apenas “denúncia social”. Mais importante que isso é construir personagens que sejam realmente interessantes, com conflitos plausíveis e verossímeis.
O filme não romantiza a maternidade nem faz dessas garotas espécies de mártires que apenas precisam de apoio e compaixão. Suas complicações e anseios fazem delas criaturas com erros e inconsequências, dada a pouca maturidade. Não deixa de ser um tipo de coming-of-age, com essas garotas tendo de entrar no mundo adulto de forma brutal, ainda que amparadas por um sistema social presente.
Europa vulnerável
Os Dardenne sempre mantiveram um olhar muito atento para essa Europa rica que também esconde as problemáticas sociais que operam nas bordas do liberalismo econômico. Muito antes do tema dos refugiados políticos se tornarem uma constante no cinema feito no continente (de modo até saturado nos últimos anos), eles já haviam alertado para o assunto em A Promessa, de 1996.
Mas muitos outros temas vão aparecer em seus filmes, como a questão da moradia, a dificuldade de encontrar e manter trabalho, os jovens que precisam assumir responsabilidades adultas, maternidades e paternidades falhas, tudo isso nos subúrbios de uma Bélgica menos favorecida.
De alguma forma, Jovens Mães resume boa parte desses temas nos diversos conflitos que as adolescentes enfrentam. Esteticamente, o filme continua mantendo as marcas estilística dos irmãos, como o registro realista-naturalista e o uso da câmera da mão tremida que potencializa os tensionamentos em cena.
No novo filme, no entanto, esse tratamento enervante é até suavizado um pouco, assim como as personagens possuem um comportamento mais sereno, na medida do possível – com exceção de Jessica, cujas atitudes lembram mais a impulsividade irascível de uma Rosetta.
Se os cineasta conseguiram imprimir uma marca já largamente copiada e reconhecida no universo do cinema de autor, Jovens Mães mostra que não é preciso mais reforçar nenhum tipo de habilidade estilística. Antes, o que os diretores buscam é seguir contando histórias humanas com sinceridade e cuidado, sem tapar os olhos para os problemas sociais de uma Europa que também sabe ser desigual.
Jovens Mães (Jeunes Mères, Bélgica/França, 2025)
Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 28/12/2025)
