Performances sexuais e políticas*
Dois universos aparentemente díspares se encontram em Ato Noturno: o mundo das artes e do teatro, representado pelo personagem Matias (Gabriel Faryas), e o mundo das disputas políticas, representado por Rafael (Cirillo Luna). O primeiro é um ator de uma companhia de teatro prestes a estrear uma nova peça; o segundo, candidato a prefeito de Porto Alegre.
Os dois rapazes iniciam um relacionamento casual, primeiramente apenas em busca de sexo, mas se veem cada vez mais conectados um ao outro. Com a posição política que Rafael almeja conquistar, ele precisa que os encontros sejam feitos às escondidas, uma vez que ele nunca se assumiu como homem gay e precisa manter uma imagem heteronormativa frente à sociedade.
Matias, por sua vez, busca conseguir papeis relevantes fora dos palcos. Surge a oportunidade de fazer um teste para uma série televisiva, chance que ele “rouba” de um amigo do teatro e com quem ele divide o apartamento. No entanto, é inicialmente rechaçado por não transparecer uma imagem mais heterormativa como galã padrão – além de ser um homem negro.
“Para a gente, era fascinante trabalhar com essas duas profissões que são, na sua essência, muito performáticas. E daí poder brincar com as suas particularidades, tendo de enfrentar os desafios ao mesmo tempo que o desejo deles vai chamando numa direção oposta, colocando tudo em risco”, pontuou Reolon, em conversa com A TARDE, na companhia do seu parceiro de direção.
Na trama, apesar de tentarem esconder o envolvimento sexual, eles descobrem um fetiche em comum: gostam de praticar sexo em lugares públicos, sob o risco de serem descobertos. Essa posição, especialmente para Rafael, oferece um risco que se interpõem entre o desejo e a temeridade de ser pego em flagrante por alguém conhecido e que possa arruinar seus planos na política. Por outro lado, oferece um elemento de prazer do qual ele não quer abdicar.
Ato Noturno estreou mundialmente na seção Panorama, do Festival de Berlim, além de ter passado pelo Festival de Mar del Plata (vencendo o Prêmio da Crítica). No Festival do Rio, o filme venceu como Melhor Ator (Faryas), Melhor Roteiro (assinado pelos dois diretores) e Melhor Fotografia (para Luciana Baseggio).
Papéis sociais
Os diretores já haviam trabalhado com o tema da performance no seu longa anterior, Tinta Bruta – sobre um jovem que começava a fazer apresentações eróticas em sites adultos. De alguma forma, o novo filme é uma continuidade da pesquisa sobre corpos queer e suas dinâmicas de atuação no mundo.
“A semente inicial deste projeto atual foi pensar nesses dois personagens, entendendo-os como atores. Um ator de teatro e um ator político. Ambos vivem em diferentes palcos nas suas vidas profissionais”, comentou Matzembacher.
Não demoram a aparecer certos olhares atravessados, como o do assessor de Rafael, que começa a desvendar os comportamentos do candidato, julgando-os impróprios para sua posição, enquanto o colega de Matias, ainda que não se importe com suas aventuras sexuais, se incomoda com as oportunidades na carreira profissional, das quais ele se julga mais merecedor.
Nesse sentido, os personagens precisam assumir papéis sociais ao mesmo tempo em que lidam com os desejos um do outro e seus anseios no trabalho. “Acaba sendo quase como o Rafael ‘mentorizando’ o Matias, ensinando a ele como se portar para atingir o sucesso na carreira”, pontuou Reolon.
Matzembacher destacou também como os dois acabam funcionando como impulsionadores mútuos. “Eu acho que eles acabam quase sendo uma femme falate um do outro porque eles tencionam e representam essa ideia da conquista, mas do perigo constante. Essa foi uma imagem que nos veio como ideia de tentação e risco. E também porque a femme fatale foge dos padrões normativos e capitalistas, ela tensiona muitas vezes esse aspecto da fuga dos padrões”.
Sexo e voyeurismo
Ato Noturno é um filme muito provocativo nas questões que se propõe, especialmente na dimensão sexual. O sexo gay aqui não é visto nem mostrado com culpa ou medo, apesar dos próprios personagens saberem do risco que a exposição carrega, mais por conta do julgamento social do outro do que por uma inadequação própria.
Porém, mais que isso, Ato Noturno é um filme sobre performance e voyeurismo. “Assim como no Tinta Bruta, voyeurismo é um elemento muito importante para a gente na ideia de como um corpo reage a um olhar. Quem olha, em que momento, como é que estão sendo olhados, como eles se sentem, e acho que isso acabou guiando boa parte das nossas escolhas estéticas”, declarou Matzembacher.
Soma-se a tudo isso a dimensão racial que, apesar de nunca discutida diretamente na trama do filme, aparece pela própria presença de um corpo negro na tela. Os diretores contam que Matias não era inicialmente um personagem negro. Muitos atores fizeram teste para o papel, que acabou ficando com Gabriel Faryas – sua primeira atuação no cinema.
“Sempre que a gente fecha com um ator novo, nós reescrevemos as cenas em que ele aparece porque acreditamos muito que, tendo uma pessoa em mente, isso modifica completamente a energia, as implicações de uma fala, das pessoas que estão ao redor. A gente discutiu e pensou bastante, junto com Gabi, as implicações raciais. Foi um trabalho muito colaborativo”, afirmou Reolon.
À medida que as relações entre os dois vão ficando mais próximas, elas também se tornam mais explosivas. Os personagens se entregam ao desejo, mas têm de considerar as oportunidades de sucesso que não aparecem todos os dias. Ato Noturno é a fusão desses anseios, sem moralismos, mas com um quê de ameaça excitante.
Ato Noturno (Brasil, 2025)
Direção: Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
Roteiro: Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 18/01/2026)
