Retomando a História do Brasil*
O início dos anos 1990 marcaram uma crise sem igual no cinema brasileiro. A Embrafilme – principal financiadora, produtora e distribuidora estatal da produção nacional – foi encerrada repentinamente pelo governo Collor. A produção nacional de filmes caiu drasticamente e a realização de muitas obras teve de ser interrompida.
Mas em 1995, com muito esforço e um trabalho de corpo a corpo em busca de patrocínio, a então atriz Carla Camurati conseguiu finalizar e lançar nos cinemas Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. O filme já se tornou um clássico da cinematografia recente e é considerado o marco inicial da chama Retomada do Cinema Brasileiro.
“Na época, a gente não tinha ideia de que o filme teria a carreira que teve. Na realidade, eu pedia para que o filme ficasse pelo menos três semanas em cartaz e acabou ficando onze meses nos cinemas”, revelou a diretora em conversa com A TARDE.
Agora, 30 anos depois do nascimento do filme, Carlota Joaquina é relançado nos salas comerciais em cópia remasterizada em 4K – padrão de ultradefinição de imagem. A diretora esteve presente na última quarta-feira, 13, em Salvador, para a pré-estreia do filme que já está em cartaz nos cinemas.
Camurati contou que na época de realização do filme a situação do cinema brasileiro era tão precária que ela passou seis meses apenas filmando. À medida que rodava partes do longa, ia mostrando para empresas e demais interessados a fim de conseguir financiamento para continuar as filmagens.
“Eu tive a sorte de contar com uma equipe maravilhosa que ficou do meu lado nessas idas e vindas. Coisa rara, porque as pessoas arrumavam outros trabalhos e mesmo assim conseguiam voltar para acompanhar a filmagem”, celebrou a diretora, que estava acompanhada da produtora do filme, Bianca de Felippes.
Realeza nos trópicos
Além do esforço de produção, Carlota Joaquina representa também um momento de reencontro do público nacional com a própria História do Brasil. Na trama, acompanhamos a personagem-título quando ela era ainda uma criança na Espanha. É enviada para a corte portuguesa a fim de se casar com o herdeiro da família real portuguesa.
Quis o destino que o irmão mais velho de D. João VI e seu pai morrem, deixando-o como herdeiro do trono, fazendo de Carlota a futura rainha consorte de Portugal. Com a investida de Napoleão Bonaparte na Europa, toda a família real e a corte portuguesa, com medo e acuada, são obrigados a fugir para o Brasil.
Coube a Marieta Severo interpretar a espanhola odiosa que tem aversão de tudo que remete à Colônia brasileira, mas que teve de se adaptar ao trópicos, com seu calor e pulgas, colecionando diversos amantes, com quem teve muitos filhos, além das eternas rixas com o marido, vivido por Marco Nanini.
Na pré-estreia em Salvador, esteve presente também a atriz Ludmila Dayer, que interpretou a versão infantil de Carlota Joaquina quando ela tinha apenas 10 anos de idade.
“Essa é literalmente uma volta ao passado onde tudo começou para mim. Carlota foi o meu primeiro trabalho e foi um divisor de águas na minha vida. Estou muito emocionada porque vamos poder celebrar esse filme que foi o marco da Retomada do cinema nacional”, comemorou a atriz.
Renascimento
2025 foi um ano muito especial para Camurati. Além do seu longa de estreia, voltou aos cinemas em cópia restaurada o filme Onda Nova (1983), dirigido pela dupla José Antonio Garcia e Ícaro Martins, em que ela integra o elenco – o filme tem ares de comédia erótica despudorada e conta a história de um time de futebol feminino.
Mas é com Carlota Joaquina que a carreira de Camurati ganha outra dimensão – era o primeiro longa-metragem dela, depois de ter dirigido alguns curtas e ser mais conhecida como atriz.
Camurati contou também que nem mesmo a dificuldade de encontrar financiamento paralisou sua determinação. “Em momento nenhum eu tive medo de não concluir o filme. Eu estava tão obsessiva no meu desejo, ele era tão latente dentro de mim, que eu só precisava executar o que eu já sabia que precisava fazer”.
Segundo a pesquisadora Isabel Regina Augusto, Carlota Joaquina custou em média R$ 600 mil – foi um dos primeiros filmes nacionais a ter apoio da Petrobrás – e levou mais de 1.286.000 pessoas ao cinema.
O público brasileiro passou a reconsiderar o cinema nacional e a se enxergar na tela – basta lembrar que outro sucesso da Retomada, Central do Brasil, de Walter Salles, estrearia em 1998, com muito sucesso, inclusive internacionalmente. A partir de então, o interesse pelo cinema nacional nunca deixou de acompanhar o grande público.
Barroco farsesco
Sobre a trama em si, Camurati conta porque escolheu focar na figura dessa estrangeira abrasileirada: “Quando aprendi na escola a história da chegada da família real e da própria Carlota Joaquina, eu fiquei muito impressionada. Na época, eu só falava nisso”.
“Ficava pensando porque que ela dizia que dessa terra ela não queria levar nem o pó, e batia os sapatinhos na caravela para não levar nada do Brasil. Aquilo me impressionou muito”, complementou.
Visto hoje, nessa cópia remasterizada, o filme renova toda a beleza plástica e exuberância dos cenários e figurinos, coisa rara para a produção brasileira da época e mesmo na atual. Tal qual uma peça barroca, só não é mais farsesca porque é a pura História do Brasil.
“Acompanhando esse percurso histórico, eu percebi que aquela eram as raízes do que a gente vive hoje, em termos de conflitos políticos”, acentuou a diretora.
Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (Brasil, 1995)
Direção: Carla Camurati
Roteiro: Carla Camurati, Melanie Dimantas e Angus Mitchell
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 15/08/2025)
