CineOP: Itatira

Uma cidade no interior do Ceará foi palco de um estranho caso com ares sobrenaturais e/ou religiosos e/ou de patologia coletiva que afetou alunos de uma escola pública do lugar. Eles passaram a manifestar mal-estares muito parecidos uns com os outros, além de experimentarem estados de transe semelhantes a incorporações espíritas depois que um dos alunos cometer suicídio anos antes e muitos alegam ter visto o fantasma do garoto pela escola.

O evento consta no longa Itatira, de André Luís Garcia – embora a produção seja paulista. Antes de se concentrar na observação do caso em si, o diretor prefere estabelecer um contexto social que aponta para um lugar pacato, com sua gente humilde, suas manifestações culturais e formações geográficas específicas. São imagens iniciais que aparentemente destoam do foco central anunciado da trama, mas o filme faz um esforço de conectá-los, ainda que de modo muito aberto.

Primeiro filme apresentado na recém-inaugurada mostra competitiva do CineOP, que busca refletir sobre o uso de arquivos nos filmes contemporâneos, Itatira faz desse uso algo bem modesto. Há mesmo uma decisão de não revelar certas imagens à disposição que foram gravadas de forma amadora de algumas das estranhas manifestações dos alunos na escola. A opção do filme é não sensacionalizar tais imagens uma vez que elas já foram exploradas pela mídia na época – foi parar até mesmo em reportagem do Jornal Hoje.

Essa espetacularização não poderia ser algo mais distante daquilo que Itatira pretende. Longe de querer explicar ou dar uma conclusão ao caso, mais interessa ao longa estabelecer uma rota de possíveis que possam lançar luz não apenas sobre o fenômeno em si, mas também de como ele reverbera nas pessoas próximas ao ambiente escolar. Surgem daí, por exemplo, indicativos de violência doméstica, especialmente sobre garotas afetadas no caso, muito bem postos por uma psicóloga local ouvida.

E o filme é bem sucedido nesse ponto até pelo menos sua metade, especialmente na maneira como faz o caso surgir sem alarde na narrativa e de como apresenta temas que circundam o fato. Da metade em diante, no entanto, há certa dificuldade em amarrar todos os pontos, pela própria natureza aberta da trama, e o longa aposta mais nas inferências que o espectador pode fazer com aquilo que nos é dado, sem querer ser mais assertivo sobre o tema – e o ponto central aqui parece ser a crença no invisível, naquilo que foge à compreensão, especialmente pelas inserções da prática do Reisado local.

Itatira promove uma espécie de jogo duplo em sua formulação de imagens. Se por um lado aposta na constituição de um mistério que não possui explicações racionais e terrenas, também não faz disso um espetáculo com expedientes de trama de horror, a vender o medo pelo desconhecido ou o fantástico como ameaça maior. Também a correlação entre as pinturas rupestres nas cavernas e os desenhos infantis, por exemplo, é bem frágil narrativamente. O filme se lança à provocação e à proposição, mas também corre o risco de soar pouco convincente na maneira de atar seus nós.

Itatira (Brasil, 2025)
Direção: André Luís Garcia
Roteiro: André Luís Garcia, Calvin Furtado e Luciano Piccoli

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