Filmes de autoinvestigação familiar, especialmente de filhos sobre seus pais, não são nada incomuns na filmografia brasileira, especialmente dos últimos anos. Meu Pai e Eu, de Thiago Moulin, é mais um exemplar recente feito em primeira pessoa a partir dos arquivos pessoais de um pai, abertos pelo filho na mesma medida em que são revelados também para o espectador, uma espécie de descoberta em comunhão entre essas duas instâncias – a da realização e da recepção.
No entanto, a grande força de Meu Pai e Eu não está na sua forma, mas na revelação de uma persona que encontramos naquela figura paterna tão complexa, tão surpreendentes são as facetas suas que se somam no decorrer da narrativa.
O pai do realizador cometeu suicídio quando Thiago ainda era criança. O baú de memórias caseiras remexidas aqui é literalmente uma mala deixada pelo pai com uma série de documentos e arquivos pessoais que o cineasta só teve coragem de abrir e vasculhar dez anos depois da morte. O desvelamento e a decifração dessa figura paterna é o que vemos no filme, na medida em que o diretor busca compreender esse homem estilhaçado.
O indivíduo que o espectador descobre ali, junto com o filho, é dos mais interessantes e complexos casos de fracasso consciente ou de clareza de espírito. Alcoólatra e depressivo, passou a amargar uma vida de muitos baixos depois que foi demitido do banco onde trabalhava. Separou-se da mãe do diretor e se afundou na bebida e na culpa até sua morte. Ao mesmo tempo, dono de uma verve poética incrível, produziu uma série de cartas, poemas e escritos em que deixa ver parte de sua personalidade e pensamento e lança para fora suas frustrações, fracassos e angústias, sublinhando também o amor pelos filhos e o remorso por desampará-los tão cedo.
É um desnudamento e tanto o que Moulin e nós vamos descobrindo a cada novo bilhete e mensagem redigida sabe-se lá em que estado emocional, mas com uma sensibilidade ímpar e um senso de sinceridade cortante. Pode-se falar até mesmo de um talento literário aguçado pelo traço discursivo desses cacos de memória e desabafo, por vezes irônicos, outras vezes cruéis, mas sempre francos.
Ao mesmo tempo, é importante não perder de vista que o desvelar desse indivíduo continua sendo uma interpretação construída pela narrativa fílmica – selecionada, filtrada e editada, portanto –, mesmo que baseada em material concreto – até nisso reside a sua dureza. Estes são vestígios de ideias catadas em tempos e momentos distintos, tais como peças de um quebra-cabeças que o cineasta busca montar. Conta também com a ajuda de familiares próximos que auxiliam nessa tarefa de decifração, por vezes experimentando uma mesma dose de descoberta do que pensava e sentia aquele homem.
Como todo filme sobre pais é também sobre suas crias, e como isso está posto no próprio título do filme, há um duplo jogo de também entender um pouco mais de si enquanto se busca o outro, espécie de caminhos paralelos. Moulin utiliza artifícios narrativos muito simples para dar conta dessa investigação, sem querer inventar fórmulas. Inventa, por outro lado, um pai possível, mesmo que em pedaços.
Meu Pai e Eu (Brasil, 2025)
Direção: Thiago Moulin
Roteiro: Caê Guimarães e Thiago Moulin