Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Luto e criação*

Conta-se que William Shakespeare escreveu Hamlet, uma de suas peças mais famosas, após sofrer o luto pela perda de seu filho de apenas 11 anos de idade. O pequeno Hamnet tinha uma irmã gêmea, e a tragédia marcou profundamente a vida do escritor e de sua esposa, Anne Hathaway.

De certa forma, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao – o filme estreia na próxima quinta-feira nos cinemas –, é a história transversal dessa fatalidade, muito embora o foco aqui não seja necessariamente o processo de criação da peça a partir da morte. Antes disso, o longa dá conta de recriar aquele ambiente familiar, e o foco recai muito mais sobre a maternidade e sobre a dureza da perda fatídica de um filho pequeno.

No filme, os personagens não são necessariamente referidos como a família Shakespeare. O dramaturgo é chamado apenas de Will (Paul Mescal) enquanto sua esposa é Agnes (Jessie Buckley). Trata-se, portanto, de uma leitura de como teria sido a formação daquele lar – o filme é baseado no romance ficcional homônimo escrito por Maggie O’Farrell.

Isso porque não há indícios concretos de que a morte do filho tenha gerado diretamente a escrita da peça, apenas especulações sobre isso – fora a similaridade dos nomes. Mais descolado ainda das tramas da realidade é o enredo de Hamlet, focado nas intrigas palacianas da família real da Dinamarca e na vingança do protagonista pela morte do pai perpetrada pelo seu tio assassino.

O filme, no entanto, se interessa por recriar aquela atmosfera específica. Nos últimos anos do século XVI, Shakespeare estava começando a se tornar um dramaturgo famoso. Enquanto a esposa e os filhos moravam no condado de Strartford, no interior da Inglaterra, o escritor passou a viver diversas temporadas em Londres, onde iniciou uma carreira de relativo sucesso nos palcos escrevendo tragédias e comédias para o teatro.

A paixão do escritor pela arte e pela dramaturgia se contrapunha à vida familiar campestre que ele deixava para trás, apesar do amor genuíno que nutria pela esposa e filhos. Isso fazia com que sua mulher assumisse as responsabilidades do lar na ausência paterna – algo não muito distante do que ainda acontece em muitos lares hoje em dia.

Romance de juventude

O filme, na verdade, resgata o amor pregresso dos personagens, assumindo, sem rodeios, o seu tom de melodrama. Agnes é vizinha de Will, mais velha que ele, e sua família teme que ela não se case, embora ela mesma não pareça muito preocupada com isso. A paixão por Will, no entanto, fala mais alto.

Ela possui um temperamento mais recluso. Por passar muito tempo embrenhada floresta, estabelece uma curiosa comunhão com a natureza, quase um bicho do mato, o que faz com que muitos a associem a histórias de bruxaria ou de loucura. Ele, por sua vez, com seu interesse pelas letras, é visto muitas vezes como um desocupado, sem futuro e indigno de casar com Agnes. Um verdadeiro casal de desajustados da era elisabetana.

Depois de vencer o Oscar com Nomadland, e após o fracasso de sua incursão pelo cinema de apelo comercial com o filme de super-heróis Eternos, Chloé Zhao encontrou em Hamnet um retorno aos dramas humanos em que ela parece estar mais confortável.

O filme tem tido uma ótima recepção pelos festivais – estreou mundialmente em Telluride, um grande chamariz para a temporada de premiações de fim de ano – e é um dos grandes concorrentes para o próximo Oscar. Muitos já têm dado como certa a vitória de Buckley na categoria de Melhor Atriz.

O olhar da diretora recai sobre a figura feminina, depois de tantas especulações e estudos concentrados na vida de Shakespeare, dado o seu status de genialidade e figura preponderante nas artes. Porém, interessa mais ao filme as pressões que recaem sobre as mulheres na condução e sustentação da harmonia do lar, essa faceta que é muitas vezes ignorada na equação que resulta no sucesso dos homens nos seus ramos de trabalho.

O filme também é feliz ao recriar a modesta, mas saudável atmosfera familiar, em especial o destaque dado às crianças. Jacobi Jupe interpreta o pequeno Hamnet, com seu carisma e ingenuidade infantis, enquanto a família toda se esforça para segurar as pontas quando o pai está ausente tentando se tornar o maior dramaturgo em língua inglesa.

Superar o luto

Soma-se a tudo isso a temática do luto que vai surgir, avassaladora, no meio da trama. A partir daí o filme ganha outra configuração dramática, mais intensa. Zhao não mede esforços para abraçar o tom mais pesaroso, e é quando Hamnet se resume a uma trama aflitiva cujo maior objetivo é fazer o espectador chorar.

Reforçado do por uma trilha sonora insistente nos temas mais deprimentes e líricos, assinada por Max Richter, não demora para que Hamnet se torne um drama gritado, exagerado, com os personagens a se acusarem mutuamente – o pai voltará para casa com o prenúncio da tragédia familiar –, e a dor passar a corroer as relações antes harmônicas.

Buckley entrega sua personagem completamente à dor da mãe em luto, que se mescla a sua relação com a natureza e com o místico. O Will de Mescal, por sua vez, vai encontrar no próprio trabalho uma maneira de superar a perda. É certo que parece um tanto forçada a relação entre a morte da criança e a peça escrita por Shakespeare, mas a sua encenação é o clímax do filme, ponto que eleva a catarse melodramática da história.

No final das contas, não se trata de transformar a dor em arte de modo direto, expositivo, como se a peça fosse uma leitura metafórica da situação real vivida pelo dramaturgo. Antes, o sofrimento impulsiona a vida a partir da necessidade de continuar criando e existindo, a fim de forjar novos momentos de felicidade e companheirismo.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, EUA/Reino Unido, 2025)
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell

Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 11/01/2026)

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