Cuidado com Radu Jude, ele morde. Quem cair nas suas garras e graças corre o risco de se converter em uma criatura cínica, altamente sarcástica, porém perspicaz. Seus filmes podem até ver a luz do dia, mas é na calada da noite – no escuro da projeção –, quando se suspendem as morais do bom senso e as noções de bom gosto, pureza e assepsia, que as entranhas de uma sociedade e sua História se revelam com mais frontalidade, mas não necessariamente com clareza. Não só os dentes do cineasta são afiados, como também o são sua criatividade e sua porra-louquice. Quando ele resolve juntar as duas coisas, sai um aborto como esse seu Dracula.
Mesmo depois do realizador ter feito muitos filmes em que a moral romena e as vicissitudes de um país de democracia recente – tal qual o Brasil – eram reviradas e esculachadas em narrativas insanas com pontadas de seriedade, nada parecia prever essa sua versão de Drácula, especialmente porque tudo aqui está sob a égide do pastiche, com aquela vontade gostosa de afundar o pé na jaca.
É de se pensar qual cineasta recente (e de outros tempos também) parece ter se divertido tanto ao fazer um filme. A satisfação primeira está na própria natureza do projeto: a manipulação de um mito nacional, gostosamente vilipendiado e subvertido nas sua essência – naquilo que um personagem tão massivamente já explorado, aproveitado, desgastado, chupado, tem de uma suposta essência. Seja como for, Jude faz uso de todo tipo de elemento, nuances e particularidades que ao vampiro estão ligados, por gênese própria ou associação histórica, num verdadeiro caldeirão de símbolos e protótipos.
Para isso, coloca em cena um personagem que é diretor de cinema e está fazendo um filme sobre o Drácula usando uma ferramenta de inteligência artificial para testar histórias distintas sobre o grande vampiro modelar. No jogo metalinguístico que Jude propõe, o filme se constrói como esquetes que atiram para muitos lados, todos eles desconstruindo o arquétipo amedrontador em prol de outras proposições narrativas que se lançam à galhofa e ao ridículo, quando não à escatologia e obscenidades. Mas também não sem deixar ver pequenas fraturas políticas nesse gesto, em especial e resumidamente sobre as dinâmicas do poder e da autoridade de um figura ora imponente e ameaçadora, ora ridicularizada na sua pequeneza – não à toa as muitas referências ao pênis e suas simbologias de macheza diante da potência/impotência sexual que representaria a força suprema do homem-alfa que um vilão desse porte deve sustentar, sempre abordado nas brechas da esculhambação mais risível.
Ao reivindicar para si o direito de também adaptar para o cinema a sua versão do vampiro mais icônico da história dos vampiros, originário das montanhas inóspitas dos Cárpatos, na Transilvânia – tal qual escreveu o britânico Bram Stoker, baseando-se na história real de um tirano governador medieval romeno, apesar desta não ter sido a primeira obra escrita sobre o vampiro na literatura –, Jude se imbui de certa autoridade enquanto cineasta romeno para fazer uma espécie de retorno às origens. Um curioso lugar de fala que parece lhe dar carta branca para fazer o que quiser com esse ícone da sua cultura.
Até mesmo o uso de inteligência artificial aqui é tratado com irreverência, menos como apenas subterfúgio e crítica barata. Primeiro porque ela está na própria diegese do filme, e depois porque, fora as imagens realmente digitais e artificiosas empregadas aqui, Jude também cria composições que seriam supostamente oferecidas pelo computador, o que aponta para um curioso exercício de compor algo (cenários e desdobramentos narrativos) que seriam atribuídos à uma inteligência artificial, filtrada agora pela criação humana.
O resultado de tudo isso pode parecer apenas pirraça e paródia, reiterada à exaustão a cada nova sequência inventada – ou reinventada, como as que retomam e debocham de clássicos como Nosferatu, não só em Murnau, mas em Herzog também, e o Drácula de Coppola – no filme dentro do filme, em um longa de quase 3h de duração. Em alguma medida é exatamente isso, mas com a vontade de, em primeira instância, fazer do humor e da risada um lugar de suspensão das importâncias históricas e de certa fidelidade e subserviência ao gênero do horror para, no fim das contas, demonstrar possibilidades muitas, mirando em idiossincrasias diversas, a partir da subversão e do escracho.
Dracula (Romênia/Áustria/Luxemburgo/Brasil/Reino Unido/Suíça, 2025)
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude