Mostra SP: Pai Mãe Irmã Irmão

Após um deslize até mesmo incompreensível (o filme de zumbis sem graça nenhuma Os Mortos Não Morrem), Jim Jarmusch prova que teve apenas um surto momentâneo, mas já voltou à boa forma de antes. Pai Mãe Irmã Irmão, seu mais novo trabalho, faz lembrar muito do início de carreira do cineasta e de sua propensão aos personagens melancólicos vivendo situações inusitadas, mas com a cadência de quem passa pelo cotidiano sem querer se abalar. No fundo, a gente nem precisaria ir muito longe para encontrar essa verve intimista e as histórias aparentemente banais que Jarmusch costura em seus filmes, algo que também estava ali em Paterson e, para citar um filme com viés fantástico, Amantes Eternos.

Mas é com Trem Mistério, longa de 1989, que o filme atual guarda mais semelhanças. Ambos são estruturados em três episódios com personagens distintos. Se no primeiro havia um pequeno hotel em que todos iam parar e servia como espaço aglutinador da trama, aqui há apenas elementos que se repetem em cada segmento (o levantar e tilintar de copos, torneiras pingando) e parecem comentar sobre o desconforto do que se passa em cena. E, claro, o peso dos laços familiares a prenderem os personagens a tramas em que eles precisam se engajar e sustentar, de modos distintos, mas sempre pelo viés das ligações inevitáveis.

De qualquer forma, paira sobre os dois e em boa parte dos longas de Jarmusch a impressão de que algo maior pode vir a acontecer ao longo da história, mas a narrativa se rende ao fluxo imanente da vida, como se freasse seus próprios impulsos, mesmo que as tesões se sintam na tela. É bem o caso aqui. Em todos os segmentos, familiares um tanto afastados se reencontram em um dia qualquer. Um casal de filhos (Adam Driver e Mayim Bialik) visitam um pai aparentemente largado (Tom Waits); duas filhas (Cate Blanchett e Vicky Krieps) tomam café da tarde com a mãe controladora (Charlotte Rampling); e um casal de irmãos (Indya Moore e Luka Sabbat) retornam ao apartamento vazio dos pais depois da morte deles.

Toda a precisão da mise-en-scène de Jarmusch se encontra em cada uma das partes, cuidadosamente orquestrado: a economia dos gestos, os diálogos poucos e precisos, o ritmo sempre desapressado, o classicismo da composição dos planos, a música suave a comentar modicamente os sinais dados pelos personagens. Mas há uma diferença entre eles também. Se no primeiro segmento surgem um constrangimento e um sentimento de inadequação pelos filhos estarem ali investigando e sondando da vida do pai, e se no segundo as três mulheres investem em um jogo de aparências felizes, embora visivelmente não queiram estar ali, na última parte a emotividade é chave para o reencontro dos irmãos e deles com o seu passado.

Mais precisamente, nas duas primeiras partes, para além da frieza do clima, a presença das figuras materna e paterna – mesmo que totalmente diferentes nas suas posturas e expectativas – cria a necessidade de uma certa representação e encenação de seus próprios papéis familiares, em todos os envolvidos; enquanto a ausência dos progenitores no último segmento liberta os filhos desse entrave, mas os coloca em uma chave de rememoração que também pode ser encenadora, mas é antes de tudo libertadora das emoções e pensamentos. A boa relação e o amor entre os irmãos ajuda a compor um quadro mais harmônico, mas nem por isso conflitante pelo que foi vivido no passado. Curiosamente, trata-se de uma família negra, e não deixa de ser um gesto interessante de união e afeto, quando a esse tipo de personagem é geralmente relegado o peso das disfunções e ausências familiares.

Se os filmes de Jarmusch sempre trafegaram por essa economia narrativa que vemos aqui, nem mesmo o diretor poderia prever que um prêmio máximo como o Leão de Ouro, conquistado no último Festival de Veneza, fosse dar tanto destaque a uma trama em lá menor. Sem ter visto os demais concorrentes, é difícil dizer se o filme é, de fato, merecedor e isso é um mero detalhe. No entanto, não deixa de ser o tipo de situação ideal para se questionar: o que faz um grande filme? O que impede Pai Mãe Irmã Irmão de ser um?

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother, EUA/Itália/França/Alemanha/Irlanda, 2025)
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch

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