Os Enforcados / Entrevista com Fernando Coimbra e Leandra Leal

Até que o crime os separe*

Em um momento de crise e indecisão na vida familiar e profissional, Regina (Leandra Leal) apela para o tarô. No jogo das cartas, a que sai para ela é a do “enforcado”. Ela se assusta, mas a pessoa que tira as cartas para Regina – sua própria mãe (vivida por Irene Ravache) – a tranquiliza já que, apesar de significar estagnação, a carta aponta também para mudanças e tomadas de atitude que pedem reconsideração e sacrifícios.

Seu marido, Valério (Irandhir Santos), está envolvido nas falcatruas da família em meio ao jogo do bicho no Rio de Janeiro – negócio que pertencia a seu pai e agora, com a morte do progenitor, passou para seu tio (Stepan Nercessian). Valério apenas cuida da lavagem do dinheiro, um tanto distante das tomadas de decisão. Por isso, acredita que não tem muito envolvimento com o crime.

No entanto, com a morte do pai, percebe que herdou dele enormes dívidas e problemas financeiros. Justamente no momento em que está promovendo uma grande reforma na mansão em que mora com a esposa. Em meio ao quebra-quebra de paredes, escombros e barulho constante de marretas e furadeiras, eles se veem, literalmente, com a corda no pescoço.

Coimbra conversou com A TARDE e revelou que a ideia para o filme surgiu quando filmou o ótimo O Lobo Atrás da Porta (2013) no Rio de Janeiro. “Eu passava pelo subúrbio carioca, pela Barra da Tijuca e a Zona Oeste do Rio, e ficava intrigado com aquele universo e de como se mostra pouco no cinema esse bairro que é tão diferente do restante do Rio. Tem o jogo do bicho, as milícias e são bairros emergentes”, confidenciou.

A partir de então, surgiu a ideia de seguir a linha de uma tragédia carioca em que esse casal precisa entrar, de vez, no mundo do crime. É a situação ideal para que eles tomem uma atitude no sentido de assumir o controle dos negócios escusos da família – seguindo o conselho das cartas que pedia sacrifício –, mesmo que para isso seja preciso sujar as mãos de sangue.

Vilões de carne e osso

A atriz Leandra Leal também conversou com A TARDE sobre a construção dos personagens. “Tem uma ironia muito grande porque o filme tem uma visão crítica sobre eles, mas eu estou ali para entender o que a Regina está vivendo e como as pessoas são capazes de fazer coisas horríveis. Isso é o mais brutal da vida”.

Em uma mistura de Macbeth – a esposa que envenena os ouvidos do marido para que este cometa atos terríveis – e Hamlet – Valério alucina com visões do seu pai morto acusando o tio de assassiná-lo para chefiar o jogo do bicho na região –, o filme se desdobra em uma tragicomédia de erros e muito sangue.

Ao mesmo tempo, eles se revelam pessoas pouco preparadas para o crime, que claramente enriqueceram no meio do caminho, gostam de ostentar aquela vida, mas não sabem muito bem o que fazer com seu poder, especialmente quando a oportunidade de ampliá-lo bate à porta.

“Depois que eu fiz O Lobo, eu quis continuar nessa linha e fazer outra tragédia carioca e me veio o Macbeth, do Shakespeare. É uma história de cobiça e ganância que tinha tudo a ver com o universo da contravenção, do crime. Então essas coisas foram se juntando”, afirmou o cineasta ao revelar que também se inspirou nos filmes dos irmãos Coen.

Casamento no crime

À medida que Regina e Valério se afundam na rede de intrigas e jogadas perigosas que eles mesmos provocam, Os Enforcados cresce em tensão, mas também perpassa pelo ridículo das situações e dos comportamentos risíveis dos personagens, até o ponto em que suas atitudes não têm mais volta.

Coimbra afirmou que o filme, de modo geral, é sobre casamento. “O relacionamento deles é esse pacto de uma vida no crime, mas que é também um pacto de amor. Só que isso os leva mais para a ruína. A paranoia desse casal, que faz isso num ato de amor, acaba destruindo eles próprios. Acaba sendo uma história sobre um casamento de uma forma mais universal”.

Os dois gostam, inclusive, de performar brincadeiras sexuais em que interpretam um bandido e um mocinha antes de irem para a cama. Tais jogos eróticos não deixam de revelar certo sadismo que aponta para um desvio moral do casal, isso quando a brincadeira começa a sair do campo do consensual e revela os desentendimentos do par.

É como se eles ultrapassassem uma linha tênue entre os jogos saudáveis ou indefesos – como Valério pensava ser sua relação com a máfia familiar no início da trama – e os riscos de assumir o crime como sustentação de vida – caminho que eles escolhem ao investir no assassinato do tio.

Humor inesperado

O elemento do humor surge no filme de modo inicialmente repentino, mas aos poucos ganha ares de farsa mal aplicada e destrambelhada. Valério parece desconhecer os meandros daquela máfia da qual sempre esteve ao lado, enquanto Regina tenta tomar atitudes sérias na sua pose de perua nova rica.

“O grande lugar em que a Regina fica engraçada é quando ela acha que sabe das coisas. Mas no fundo é uma pessoa muito mal preparada. Então ela acaba fazendo coisas absurdas e isso é hilário”, observou Leal.

Ao mesmo tempo, Coimbra e os atores nunca deixam que esses personagens caiam na caricatura, até por enquadrá-los em um contexto quase íntimo da subversão da lei. Os Enforcados, apesar de lidar com o mundo de violência e desse crime organizado na sociedade civil, criando uma espécie de máfia à brasileira com sotaque carioca, desvenda as fragilidades que há na ganância humana.

Os Enforcados (Idem, Brasil/Portugal, 2024)
Direção: Fernando Coimbra
Roteiro: Fernando Coimbra e Juliana Soares

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 17/08/2025)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos