Caminhos da Educação*
Já no primeiro depoimento de Hora do Recreio, uma estudante de Ensino Médio conta a história de como seu pai agredia a ela e a mãe. A garota resolveu fugir de casa e foi amparada por uma tia, que acabou conseguindo a guarda dela, enquanto os pais continuaram juntos, mas foram morar na rua. A mãe conseguiu se separar, saiu daquela situação, mas o pai continua morando na rua, viciado em drogas.
Não é um relato fácil de ouvir, tanto quanto não deve ser nada fácil expor algo tão íntimo e brutal de sua própria vida. Mas histórias como essa estão espalhadas pelo novo filme de Lúcia Murat, já em cartaz nos cinemas.
Hora do Recreio é uma espécie de panorama da realidade brasileira mais pobre contada pelo ponto de vista de jovens do Ensino Médio e Fundamental. A ideia não é falar sobre a situação do sistema educacional, mas ouvir o que aqueles jovens têm a dizer. “Eu chegava lá e ficava sentadinha na sala de aula, escutando eles falando”, contou a cineasta em entrevista para A TARDE.
“E os assuntos que eram trazidos, como feminicídio, racismo, preconceito, eram temas que os professores já estavam debatendo com eles em sala de aula. Eu me lembro que um dos professores me falou: ‘Para a classe média, é espantoso ouvir isso, mas para a gente, não é’”, revelou Murat.
Cineasta carioca cuja obra está muito relacionada aos temas da Ditadura Militar e da perseguição política no Brasil, ela se volta agora para outra faceta política da realidade brasileira: a assistência a jovens que passam por situações difíceis e de como isso atravessa o papel da escola e da Educação básica no país, demarcadamente nas instituições de ensino da periferia do Rio de Janeiro.
A equipe do filme visitou quatro escolas da região, com realidades distintas, também com condições diferentes de filmagem e interação com os alunos. Mas em todas elas encontrou alunos dispostos a falarem sobre seus problemas de vida, ao mesmo tempo com uma consciência política e social muito demarcada em alguns deles.
“A gente ficou muito impressionado, primeiramente, com os relatos, e segundo pela coragem e pela capacidade de articulação deles de falarem daquilo. Nosso trabalho na edição foi apenas selecionar por assuntos porque eles iam falando um atrás do outro, exatamente como está no filme”, declarou a diretora.
Arte como educação
Uma das professoras fala logo no início sobre a importância da Educação como salvadora da vida daqueles jovens. Essa é uma verdade universal. Mas o filme aproveita para criar uma outra camada nessa discussão ao incluir a arte como fator de aprendizado para muitos jovens estudantes.
Isso porque, em meio aos debates e conversas em sala de aula, o filme também propunha àqueles estudantes uma série de atividades lúdicas e artísticas capazes de impulsioná-los não apenas para expor os desabafos que eles queriam fazer, mas também como incentivo à criação.
Um dos mais emblemáticos exemplos é a turma que ganha a missão de preparar a encenação de Clara dos Anjos para o teatro. Livro publicado pelo escritor negro Lima Barreto, fala do preconceito de cor sofrido pela jovem protagonista que passa a ter consciência da sua identidade racional e feminina através do preconceito sofrido em diversas esferas da vida.
“Quando eu fiz a primeira leitura com eles, foi uma tragédia. O texto do Barreto, dos anos 1920, tem uma linguagem muito difícil, não é coloquial para os adolescente. Mas na segunda leitura, eles começaram a brincar com o texto, a fazer piada, trazer humor. Então, a saída para isso eles mesmo deram, era tornar contemporâneo aquele texto”, revelou Murat.
Esse é realmente um dos melhores momentos do filme. Entre os ensaios da peça, dos insights que eles encontram para trabalhar o vocabulário rebuscado, eles acabavam conversando e discutindo temas que aparecem no livro e também na vida cotidiana deles. O filme contrapõe a realidade do início do século XX com os dias atuais.
O filme abre ainda com imagens de uma exposição de pinturas retratando estudantes de escolas públicas feitas pelo artista Maxwell Alexandre, nascido e criado na favela da Rocinha, hoje um artista renomado.
Produção conturbada
Mas nem tudo na produção e condução do filme são flores. Em alguns casos, a dura realidade de violência impossibilitava que as filmagens fossem realizadas em tal escola porque uma ação policial estava acontecendo no dia – e essas situações são expostas no filme não como barreiras, mas como circunstância da própria vida cotidiana daquela comunidade.
Em outros casos, a autorização governamental para se filmar dentro de uma escola pública demorava muito para sair e, em algumas situações, simplesmente nunca veio. Nesse caso, foi preciso levar os alunos para outro lugar que simulasse uma escola para que fosse possível conversar com eles, tendo como apoio professores empenhados.
“A gente estava com muito medo disso não funcionar porque era outro lugar, eles podiam ficar inibidos. Mas talvez tenha sido até o contrário. Por estar fora da escola, eles tiveram mais coragem para falar. No início tinha certa bagunça, mas logo eles entraram no ritmo do filme”, pontuou.
Alguns dos professores que aparecem no filme, aliás, são atores contratado pela produção para se passarem por profissionais da educação, parte do hibridismo narrativo de Hora do Recreio. “A Leandra é um atriz do Nós do Morro, mas também viveu essa realidade. Ela se envolveu tanto com a turma que acabou falando de sua própria experiência pessoal. Ninguém acredita que ela é uma atriz”, brincou a diretora.
Em Hora do Recreio, portanto, vinda real e ficção se imbricam, mas o que fica mesmo latente é a dura realidade de jovens muitas vezes desassistidos pelo sistema educacional e político do país, mas que pulsam em arte e no desejo de conquistar uma vida melhor.
Hora do Recreio (Brasil, 2025)
Direção: Lúcia Murat
Roteiro: Lúcia Murat
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 15/03/2026)
