Eclipse / Entrevista com Djin Sganzerla

Mulheres lunares*

“A onça é a grande guardiã do céu e das estrelas, é um animal sagrado, com muitos poderes espirituais. Quando o sol e a lua não puderam mais estar juntos, a onça ficou tão triste que de vez em quando ela engana a natureza, puxa com suas garras o sol pra perto da lua para que eles possam passar alguns instantes juntos. Os brancos chamam isso de eclipse”.

Essa lenda ancestral é contada a Cleo (Djin Sganzerla) por sua meia-irmã Nalu (Lian Gaia), de origem indígena. Nalu e Cleo compartilham o mesmo pai, mas vivências e realidades de criação totalmente diferentes, especialmente na relação díspar com a figura paterna.

O reencontro delas e as angústias que cada uma carrega é o que guia a narrativa de Eclipse, novo filme da cineasta Djin Sganzerla. O longa terá sessão de pré-estreia na noite de hoje, às 19h30, no Cine Glauber Rocha, com a presença da atriz e diretora para conversar e debater o filme com o público.

“Eu me utilizo do thriller enquanto linguagem mais envolvente para falar sobre essas duas irmãs, uma questão entre o pai delas, sobre memória, mas esta é apenas uma das facetas dessa trama. Pensei que através do thriller eu poderia tocar em temas muito importantes e urgentes, com surpresas que vão se revelando a cada momento”, explicou a diretora que conversou com A TARDE sobre a obra.

Astrônoma e prestes a publicar uma pesquisa importante em sua área, Cleo também está grávida e vive uma rotina aparentemente harmônica com seu marido, Tony (Sergio Guizé). A chegada da irmã e as revelações de que o pai delas abusava sexualmente da irmã mais nova abala as certezas e a tranquilidade de Cleo.

Nalu não está em busca de vingança ou algum tipo de reparação que sua irmã nem é capaz de oferecer. O que poderia sugerir uma rivalidade entre elas, transforma-se em sororidade quando Cleo passa a suspeitar do comportamento do marido.

“Interessava-me muito falar sobre mulheres aparentemente opostas, mas que no fundo se complementam. E me interessei muito também pelo universo da tradição indígena. Nalu é diferente das expectativas que se tem de uma mulher indígena. Ela é forte, destemida, lida muito bem com a tecnologia e é também misteriosa, não se decifra por completo”, pontuou a cineasta.

Masculino tóxico

Em contraponto ao lugar do feminino a partir dessas personagens, Eclipse também se dedica a dissecar os comportamentos masculinos, especialmente aqueles mais tóxicos. Os homens que aparecem no filme possuem uma dualidade perigosa. Eles são gentis, amorosos, por vezes apoiam causas humanistas, mas escondem comportamentos e ações condenáveis.

Assim, o longa desfaz a ideia do vilão masculino caricato e o torna mais crível. Em alguns casos, revelam traços bastante violentos e sérios, o que faz a narrativa investir em um suspense de investigação que coloca Cleo e Nalu em posição de tomadas sérias de decisão contra esses homens.

“Os melhores personagens são aqueles com múltiplas camadas, os que possibilitam um mergulho na alma humana, não apenas em estereótipos. E esses são homens contraditórios que a gente encontra o tempo todo na vida”, destacou Djin.

O próprio pai de Nalu e Cleo encarna muito bem essa dualidade com sua presença na vida das meninas. Cleo nunca imaginaria que o seu amoroso pai tenha cometido atos tão grotescos com sua irmão mais nova, dada também a origem indígena dessa outra família que ele sequer assumiu.

Força ancestral

Djin Sganzerla vêm de um berço artístico de muito prestígio. Filha de Helena Ignez e Rogério Sganzerla, expoentes do cinema de invenção brasileiro (fizeram clássicos absolutos como O Bandido da Luz Vermelha, A Mulher de Todos, entre tatos outros), ela segue mais de perto os passos da mãe que, atriz consagrada desde a juventude, passou a assumir a cadeira de diretora nos últimos anos.

No entanto, nota-se nos filme de Djin uma personalidade muito própria, tanto na forma como nos temas que a instigam mais. Ela falou sobre suas pretensões como cineasta, mesmo com uma longa e sólida carreira de atriz no cinema e teatro, algo que ela quer “continuar fazendo até os últimos dias da minha vida”. Mas a vontade de comandar os próprios projetos foi mais forte nos últimos tempos.

“Eu sempre tive esse desejo de me expressar de uma forma mais plena. Não que na atuação eu não possa fazer isso, mas você fica à espera de personagens que sejam incríveis. Então essa necessidade de expressão era algo muito forte para mim. Daí, junto com outra roteirista, Vânia Medeiros, nós escrevemos, em um processo muito explosivo, o Mulher Oceano”, revelou a diretora.

Se neste primeiro filme Djin se voltou para as mulheres que encontram refúgio, trabalho e força nas águas do mar, agora a cineasta mira as estrelas e o cosmos a fim de vislumbrar o sagrado feminino por meio dos astros e da ancestralidade cósmica.

O reencontro de Cleo e Nalu reacende fagulhas da infância, lapsos de memórias que elas mesmas tentam reconstruir como uma quebra-cabeças. Porém, é no presente que a comunhão entre as duas se dá de forma mais plena e em um processo de apoio mútuo diante das opressões masculinas.

A onça é uma figura que permeia esta história não apenas na lenda narrada no início, mas como presença recorrente no filme. Ela espreita as personagens como a questionar em que momento elas também mostrarão as suas garras a fim de sair de um lugar de apatia e enfrentar os embates de uma sociedade doentia e misógina.

Eclipse (Idem, Brasil, 2025)
Direção: Djin Sganzerla
Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 13/05/2026)

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