A política do homem*
Os créditos iniciais de A Graça dão conta de pormenorizar alguns dos poderes, responsabilidades e gerências que recaem sobre um presidente da República italiano. Ele não governa sozinho, mas tem nas mãos a possibilidade de levar adiante certos projetos e emperrar outros.
Mariano De Santis (Paolo Sorrentino) é o chefe da vez e está nos últimos meses de seu mandato, sem pretensões de se candidatar novamente. Prepara-se para se retirar da vida política, mas terá que enfrentar algumas decisões importantes, como a aprovação da legalidade da eutanásia.
Novo filme do italiano Paolo Sorrentino, A Graça traça os embates do poder político, mas sem se deter na rotina burocrática da máquina pública, com suas muitas instâncias, interferências e embates entre os poderes republicanos. Prefere, por sua vez, focar nas tomadas de decisão de um homem encastelado na sua nobreza e com seus valores pessoais.
O filme competiu no último Festival de Veneza, de onde saiu com o Copa Volpi de Melhor Ator para Toni Servillo. Um reconhecimento merecidíssimo, dado não só o talento do veterano ator, como a longa parceria dele com Sorrentino – Servillo ofereceu interpretações memoráveis em obras como A Grande Beleza (2013), Il Divo (2008) e As Consequências do Amor (2004).
Ele também interpretou para Sorrentino ninguém menos que Silvio Berlusconi no díptico Loro (2018), dando vida ao controverso e bilionário primeiro-ministro italiano, com suas muitas polêmicas e acusações de corrupção. Ator e diretor estão, portanto, acostumados a discorrer sobre a vida política da Itália.
Mas agora, o tom usado pelo diretor é outro. Deixa-se de lado as picuinhas internas, as manobras de poder e ganância, as estratégias de manipulação em proveito próprio. Aqui, Servillo é dono de um personagem fictício, introspectivo e plácido. Apesar dos dilemas morais que corroem o presidente, acrescidas das dinâmicas administrativas sempre marcadas por pressões e jogos de interesse, A Graça consegue ser um filme bastante intimista.
Conflitos internos
Mesmo tratando de temas amplos e com base nos meandros da política interna de um país do tamanho da Itália, o filme busca investigar as inquietações pessoais de De Santis. Jurista importante que dedicou grande parte de sua vida ao Direito Penal, ele conhece como ninguém as leis, suas formulações e engrenagens.
É por isso que, ao se deparar com a necessidade de endossar ou não uma nova diretriz legal sobre a eutanásia, ele fica indeciso. Tem a seu lado Dorotea (Anna Ferzetti), sua filha que é também jurista e está engajada na aprovação da lei, com quem trava uma série de discussões e conversas sobre todos os assuntos, inclusive os mais particulares.
Mas ele precisa se preocupar também com a Itália católica que não vê com bons olhos esse tipo de aprovação. Não à toa, o Papa (interpretado aqui por Rufin Doh Zeyenouin) aparece no filme como amigo e confidente do presidente, não na tentativa de convencê-lo de algo, mas como interlocutor que também troca boas ideias com o político.
Ao mesmo tempo, inquieta o presidente um segredo de sua vida íntima que o persegue sem descanso: sua esposa já está morta, mas ela chegou a confessar que, no passado, o traiu com outro homem, sem nunca confidenciar a identidade desta pessoa. Agora, ao encarar uma nova fase da vida, mais solitária e longe do poder presidencial, esse detalhe invade os seus pensamentos de forma inquietante.
A “grazia”, em italiano, também remete a um tipo de indulto presidencial sobre crimes cometidos por pessoas que já cumpriram parte de uma pena (que pode ser perpétua). É uma forma de perdão jurídico que está nas mãos do presidente, mas que também atormenta e bagunça os preceitos morais do atual presidente.
De Santis enfrenta pressões para conferir indulto a duas pessoas que mataram seus companheiros por motivos diversos, tentando se livrar de uma rotina de sofrimento e sacrifício. Esses casos servem para revirar ainda mais a cabeça do velho jurista, mas principalmente reflete no perdão que ele deve ou não conferir a sua própria esposa.
A beleza da solidão
Sorrentino sempre foi um esteta. Seu cinema, independente do tema, sempre tratou tudo com certa grandiloquência e autoimportância – algo que prejudica demais alguns de seus filmes, como é o caso do longa anterior, Parthenope (2004). É como se ele não conseguisse filmar se não através de um tom operístico e imponente.
Em A Graça, essa conformação narrativa está presente nos planos abertos, no uso da música e da câmera lenta, mas tudo é realizado com mais parcimônia, o equilíbrio ideal entre o macro e micro – reflexo dos dilemas do próprio personagem. É um feito e tanto para uma trama mais íntima que só ganha mais determinação pela importância que se dá também aos pequenos gestos dos personagens, não apenas às grandes decisões que eles precisam tomar.
Mesmo diante das contingências da vida presidencial e de suas muitas regras e rituais, o presidente de Servillo se desnuda diante do espectador. A partir de certo momento, ele começa a ouvir discos de rap (num fone de ouvido que ganha da filha), o que denota seu desejo de se lançar ao novo, de ampliar os horizontes, dentro do que é possível para ele.
Por tudo isso, Sorrentino e Servillo criam um personagem dúbio, incerto, que precisa transparecer determinação e pulso firme, mas que também é perseguido por uma incerteza que coloca em xeque sua masculinidade frágil e suas convicções de homem do poder. Felizmente, o filme toma uma posição nos minutos finais e não se entrega ao discurso fácil dos finais em aberto, mantendo a dignidade e, sobretudo, a humanidade de seu protagonista.
A Graça (La Grazia, Itália, 2005)
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 22/03/2026)
