Casa de Antiguidades

Casa de Antiguidades foi selecionado para o Festival de Cannes em 2020, justamente no ano em que o evento não aconteceu por conta da pandemia do coronavírus. Ainda assim, o filme recebeu o selo da seleção oficial de um dos mais importantes festivais do mundo e, logo que pode, começou a circular por outros eventos, online e presencialmente.

Agora, o filme chega aos cinemas comerciais do país, fazendo um retrato duro de uma Brasil interiorano, conservador e preconceituoso. Trata-se do longa-metragem de estreia do cineasta paulista João Paulo Miranda Maria, que já vinha fazendo uma bela carreira com o curta-metragem. Casa de Antiguidades revela o amadurecimento do jovem realizador, à frente de um projeto intimista e com forte carga política nas suas entrelinhas.

Antônio Pitanga vive Cristovam, um imigrante “nortista” em terras do Sul do Brasil – o filme não especifica exatamente onde a história se passa, mas pelos discursos separatistas dos moradores locais, fica algo entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Ali, no interior, o personagem trabalha em uma grande empresa de laticínios, sendo uma das poucas pessoas pretas no local; sofre injúrias raciais e preconceito constantemente, e ainda vai ter sua carga de trabalho e salário reduzidos.

Cristovam é mais um dos grandes personagens vividos pelo grande ator que é o baiano Antônio Pitanga. Com seu jeito taciturno, expressão dura e sempre muito calado, ele vive entre o trabalho e a antiga casa onde mora, cheia de tralhas e coisas velhas – além da companhia de um cachorrinho aleijado de uma perna. As tensões entre os moradores locais não demoram a aparecer, à medida em que o cotidiano de Cristovam se torna cada vez mais sufocante para ele.

Solitário, sem amigos, ele vai da fábrica à casa, passando somente pelo bar onde todos ali parecem se encontrar. Mesmo nesse ambiente, é visível o desconforto que sente em relação aos demais, pela forma fria com que é tratado. Seu maior contato é com Jennifer (Ana Flávia Cavalcanti), jovem arredia que assume uma postura muito altiva e agressiva, como forma de se proteger em um ambiente tão masculinizado.

Casa de Antiguidades é um filme atmosférico, de tempo espaçado e ritmo lento, o que acentua a tensão do protagonista em um ambiente cada vez mais hostil. Paira no ar um desconforto sobre esse personagem resiliente, bem como um tom de mistério pelas coisas estranhas que passam a acontecer e que ele começa a enxergar, entre a lucidez e o delírio.

 Sentidos políticos

Aos poucos, o filme vai construindo uma atmosfera que acentua um lugar da imaginação e de uma percepção sensorial daquele senhor. Mesmo assim, em nenhum momento escapa do longa o sentido político das ações e dos acontecimentos que se dão naquele ambiente interiorano.

Por vezes, o roteiro do filme é muito literal nas alfinetadas que quer dar, chegando mesmo a soar maniqueísta em certos pontos – o discurso de separação do Sul-São Paulo do restante do país, proferido pelos estrangeiros donos da fábrica onde Cristovam trabalha, não possui sutileza nenhuma, surgindo de forma quase caricatural.

Por outro lado, o filme consegue complexificar esse protagonista porque nunca é mostrado com condescendência. Ele também possui comportamentos machistas e retrógrados, herança de um passado brutalizado no “Norte”. As tensões que ele passa a sofrer no local também tornam o seu comportamento duro e severo, formando um ciclo vicioso de violências e opressões.

O filme acrescenta a tudo isso ainda uma camada fantástica – ou fantasmática, melhor dizendo. Cristovam passa a ter alucinações (como a da pantera que invade a sua casa, o que acaba provocando uma tragédia involuntária), e o próprio filme acentua certa estranheza surreal no filme – os olhos de alguns personagens que passam brilhar com um dourado estranho, luzes que cortam o céu, sons de um passado distante que invadem o filme.

Seja alucinação ou não dentro da mente de Cristovam, o personagem passa a reagir de modo também alucinado, como forma de se contrapor aos abusos que sofre. Suas armas são o passado ancestral e as muitas ferramentas – quase carnavalescas – que tem no velho guarda-roupa. A batalha pode ser desigual, mas Casa de Antiguidades testa seu personagem até o limite da razão, em que a dignidade de uns enfrenta a obsessão doentia dos outros.

Casa de Antiguidades (Brasil/França, 2020)
Direção: João Paulo Miranda Maria
Roteiro: João Paulo Miranda Maria e Felipe Sholl

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 23/07/2022)

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