Morte no Nilo

Assassinato à espreita*

O trabalho de Kenneth Branagh como cineasta – ele é também ator, roteirista, dramaturgo e diretor de teatro – parece seguir dois caminhos distintos até então: trafega tanto pelo cinema autoral em alguns filmes e noutros abraça o entretenimento comercial. Trata-se de um diretor versátil que pode vir nas duas chaves, talvez não necessariamente com uma marca pessoal inscrita em seus filmes, mas ainda assim conduzindo o todo com competência, em ambas as possibilidades.

Há alguns meses, por exemplo, lançou Belfast, um dos principais concorrente ao Oscar 2022 (indicado em sete categorias), filme de tons autobiográficos, filmado em preto-e-branco e que chega aos cinemas brasileiros no início de março. Antes, lança agora nesse final de semana o drama policial Morte no Nilo, adaptação do romance homônimo de Agatha Christie.

Branagh dirige e protagoniza o filme dando vida ao icônico personagem Hercule Poirot, detetive super inteligente e perspicaz, observador metódico e famoso por solucionar os crimes mais mirabolantes e difíceis, especialmente assassinatos. É mais um destes com o qual o personagem irá se deparar aqui, nos cenários idílicos e misteriosos do Antigo Egito.

O ator-diretor já havia feito a dobradinha (dirigido e protagonizado) uma outra adaptação de livro da Dama do Crime, Assassinato no Expresso do Oriente (2017). Esse novo filme funciona quase como uma continuação das peripécias do renomado detetive, encarnado por Branagh.

O verniz de ambos os filmes é o mesmo: certa elegância e um clima de convivência burguesa se contrapõem aos dramas pessoais e aos sentimentos humanos mais rasteiros e vis que levam aos crimes onde todos são suspeitos até prova em contrário. Aqui, temos a abastada herdeira Linnet (Gal Gadot) que acabou roubando de sua melhor amiga Jackie (Emma Mackey) o garboso pretendente Simon (Armie Hammer).

Os dois agora estão noivos, mas são seguidos de perto por Jackie que só quer se vingar do casal que a traiu. Antes mesmo do crime acontecer, a jovem já tem cara de suspeita, mas não demoram a aparecer uma série de outros personagens que estão de olho na riqueza de Linnet, interessados também em acabar com seus planos de casamento com Simon. Todos eles encontram-se à bordo de um navio que passeia pelas águas do rio Nilo e onde o destino de todos serão traçados.

Mistérios clássicos

A britânica Agatha Christie é a escritora mais bem-sucedida da História porque seus mais de 60 livros foram vendidos aos borbotões ao redor do mundo. Suas obras mais clássicas seguem o mesmo tipo de romance policial em que um crime misterioso, com múltiplos suspeitos, só é desvendado ao final de forma surpreendente e, por vezes, mirabolante.

No cinema e na televisão, seus livros já foram adaptados inúmeras vezes, fonte inesgotável de inspiração. Basta saber se esse modelo narrativo ainda funciona como modo de fisgar o espectador. Em 2019, o diretor Rian Johnson lançou Entre Facas e Segredos, romance policial que revirava do avesso as marcas do gênero (víamos o crime acontecer logo no início e já sabíamos de antemão quem era o responsável, o que fazia com que o filme engendrasse o mistério a partir de outros conflitos e tramas paralelas).

Depois disso fica difícil parecer inovador. Morte no Nilo, no entanto, prefere seguir um caminho mais tradicional, apostando na identificação com os personagens e nas tramas de investigação em que, a cada nova cena, alguém parece mais suspeito e com motivos mais fortes de ter cometido o assassinato – este que só acontece aqui na metade do filme e não será o único.

Linnet viaja acompanhada de uma familiar (Jennifer Saunders) e sua criada (Dawn French); a cantora de blues Salome Otterbourne (Sophie Okonedo) também segue escoltada por sua sobrinha e ajudante Rosalie (Letitia Wright). Bouc (Tom Bateman) é um jovem também abastado, amigo de Poirot, acoleirado por sua mãe controladora (Annette Bening). Observando a todos está a criada de Linnet, Louise (Rose Leslie) e o advogado que cuida dos ricos negócios da herdeira (vivido por Ali Fazal).

Crimes humanos

É um time e tanto de suspeitos, com a morte à espreita. Com esse conjunto de tipos humanos diversos, o que Branagh faz aqui (junto com o roteirista Michael Green) é conferir certa dignidade a uma trama de caráter tão popular, mirando na discussão das vicissitudes humanas, muito embora o filme não fuja das peripécias melodramáticas que compõe uma boa história de intrigas amorosas e policiais (envolve separações, ciúmes, ganância, traições, romances proibidos e desejos reprimidos).

Em alguma medida o filme desperdiça uma série de tramas paralelas que poderiam servir como despiste para o conflito principal que se desenha a partir do triângulo entre o casal de noivos e a mulher traída. Grande parte da atenção do filme se volta para este centro de conflitos, quando outras intrigas se desenham nos bastidores. Os dramas dos coadjuvantes poderiam ser melhor explorados e só aparecem mais quando é preciso explicar melhor os crimes.

Até mesmo a figura de Poirot ganha um background interessante a revelar um pouco de seu passado – e do seu talento para a observação e a análise perspicaz do cenário em que se encontra, mesmo em um contexto de guerra. Com isso, o filme busca acentuar um toque de humanismo ao discutir sobre os tropeços na vida e as circunstâncias que nos levam para muitos caminhos distintos – seja o da resignação, da felicidade ou da crueldade. Todos eles, de qualquer forma, compõem a natureza humana.

Morte no Nilo (Death on the Nile, EUA/Reino Unido, 2022)
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Michael Green

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 13/02/2022)

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