Duelo psicológico*
Dois irmãos vivem encerrados em uma casa. Jonas (Dan Ferreira) é um jovem muito acanhado e inseguro de si, cheio de desejos de vida e amor, mas que não consegue tomar iniciativas. Já Nestor (Antônio Marcelo), mais velho e cego, passa os dias a controlar os passos do irmão, entre a brincadeira e a autoridade.
É no embate dos desejos conflitantes desses dois homens que se faz o filme baiano Timidez, primeiro longa-metragem dirigido juntos por Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa. O filme estreia hoje em circuito comercial no Brasil, depois de passar por alguns festivais importantes, como o Festival do Rio e o Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Do festival local, o filme ganhou os prêmios de melhor filme baiano segundo os júri das Associações e do júri jovem, além do prêmio para a fotografia (assinada por Matheus da Rocha Pereira). O filme é baseado na peça teatral O Cego e o Louco, da dramaturga Cláudia Barral, e os diretores conversaram com A TARDE sobre o processo de transposição para o cinema.
“A gente achava o texto da peça muito fatalista. Então passamos por uma atualização desse roteiro. Pudemos fazer adaptações que não existem no texto original, e funcionou muito para a Claudinha, tudo fazia muito sentido”, pontuou Susan.
“E ao mesmo tempo, a gente nunca quis eliminar o DNA do teatro. Ele está ali, é a base da estrutura do filme. Nosso cuidado foi o de não perder a sensação do jogo teatral”, complementou Thiago.
Isso porque Timidez se concentra muito nos conflitos entre os irmãos que se dão basicamente dentro do apartamento onde vivem. Jonas possui um interesse na vizinha do andar de cima, mas não tem coragem de tomar a iniciativa. Por sua vez, Nestor brinca com a situação até mesmo tripudia dela, identificando no irmão um comportamento imutável.
Cria-se, portanto, uma relação ambígua entre o cuidado fraternal de Nestor, querendo ajudar e acolher o irmão na sua incapacidade de convívio social, e uma dimensão muito controladora na suas falas e comportamentos, sobretudo na maneira como ele busca direcionar os sentimentos do irmão mais novo, ditando o que Jonas deve pensar e entender.
Irmandade tóxica
“A jogada de Nestor é muito dúbia. É como se ele dissesse: ‘Eu cuido de você, mas você vai ficar eternamente dependente desse cuidado. Ao mesmo tempo, crio uma barreira em você e não te deixo curar suas possíveis cicatrizes’. Isso gera uma relação abusiva de Jonas para com Nestor”, observou Thiago.
“Quando eu trabalhei com eles na preparação do elenco, principalmente com o Marcelo, nós discutimos muito a noção de gaslighting”, afirmou Susan. O termo, que se refere às manipulações discursivas que um agressor usa sobre alguém para fazer a pessoa duvidar de sua própria percepção das coisas, é ideal para identificar Nestor.
“A gente queria trazer para Marcelo a condução mental do desejo do que ele queria suscitar no outro, mas fazendo isso de forma carinhosa. Ele vai reforçando no Jonas uma impossibilidade de possuir uma persona porque a persona que vai vigorar é a dele”, acrescentou a diretora.
O filme também usa metáforas pertinentes para isso, como a ideia de Jonas e a Baleia, quando o irmão mais velho, ainda no início do filme, fala que ele quer proteger o irmão “assim como Jonas estava protegido na barriga da baleia”, sem se dar conta de como isso está equivocado.
Nesse sentido, o próprio Antônio Marcelo, que também conversou com A Tarde, consegue fazer um estudo mais amplo de seu personagem: “Nestor acaba sendo os olhos de Jonas. Ele é tóxico, mas está fazendo aquilo para Jonas poder viver, se não ele fica só apático. Não sou a favor da metodologia do sofrimento. Ele é cruel, perverso. O método de Nestor é questionável, mas as motivações dele são afetuosas”, defendeu.
Susan e Thiago possuem uma longa carreira no teatro, na TV e no cinema, inclusive no curta-metragem. Já haviam dirigido Dan Ferreira em Sobre Nossas Cabeças e Antônio Marcelo em Couraça e em As Balas que Não Dei ao Meu Filho, mas essa é a primeira vez que reúnem os dois atores. Eles também nunca haviam contracenado juntos.
Autoestima na negritude
Outro elemento importante em Timidez é o fato de colocar dois homens negros nessa situação de embate, discutindo saúde mental e autoestima. Os diretores contaram que a peça original sempre foi encenada por atores brancos, mas que sua perspectiva mudou quando eles começaram a pensar como seria se os protagonistas fossem negros.
A partir disso, o próprio projeto toma um novo rumo. “A gente está falando no filme de processos que violentam emocionalmente pessoas negras num país como o nosso. Não é sobre cegueira ou sobre loucura apenas. Estamos falando de processos que geram adoecimentos, coisas que a sociedade enxerga como comportamento de defesa, mas são reflexos de problemas emocionais”, destacou a diretora.
E ela complementa: “Jonas não tem uma patologia. Alguns podem ler como bipolaridade, ataque de pânico, autismo, ansiedade. Essa é uma estratégia para provocar o público a pensar que quando se rotula uma pessoa assim, não temos como separar toda a experiência racial que ela teve de adoecimento para que ela opte por se fechar tanto a fim de se proteger”.
Timidez guarda para o final ainda boas doses de surpresa e reviravoltas que complexificam a jornada dos personagens e suas inquietações internas. Acima de tudo, retrata um duelo psicológico que se faz a partir de forças nem sempre antagônicas, mas que podem ser nocivas e autodestruidoras.
Timidez (Brasil, 2025)
Direção: Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik
Roteiro: Cláudia Barral, Susan Kalik e Marcos Barbosa
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 16/04/2026)
