Titane

As mutações e limites do corpo*

Desde quando venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, Titane tem dividido opiniões por onde passa. O filme francês da cineasta Julia Ducournau surpreende tanto por sua narrativa de impacto, quanto pelo fato desse ser apenas o terceiro longa-metragem dirigido por ela (o primeiro, aliás, foi uma codireção para um filme de TV), já solidificando uma veia autoral da cineasta. O filme chega agora ao Brasil através da plataforma de streaming MUBI.

Titane não é um filme fácil nem busca angariar a pura simpatia do espectador – pelo contrário, ele tenta mesmo causar repulsa e choque. O filme começa com a pequena Alexia sofrendo um acidente de carro com o pai e, com uma fratura no crânio, recebe uma placa de titânio na cabeça. O trauma lhe fará companhia para o resto da vida, o que a torna uma pessoa endurecida e fria.

Ao crescer, Alexia (vivida por Agathe Rousselle) ainda mora com os pais e trabalha como dançarina em uma feira de carros – os automóveis, aliás, acabam se tornando uma paixão para ela. O filme faz disso uma relação de quase simbiose entre homem (uma mulher, no caso) e máquina. Há uma cena em que Alexia praticamente faz sexo com o carro! (só mesmo vendo o filme para compreender melhor) e isso é fundamental para as transformações que ela vai sofrer no próprio corpo.

A partir disso, Titane coloca o espectador dentro de um universo muito particular (entre o mundo real e certas fabulações narrativas) por onde essa personagem trafega e comete uma série de atitudes impetuosas e violentas. O cinema de Ducournau tem muito forte essa veia da impulsividade. Os personagens parecem agir por instinto, algo mesmo de nível animalesco, e a propensão à violência parece seguir uma ordem natural do indivíduo como forma de autoproteção e defesa.

A cineasta evita, por exemplo, algum tipo de leitura “psicologizante” na medida em que nunca busca explicar as reais motivações da personagem, muito menos encontrar razões objetivas e didáticas para o seu comportamento agressivo, isso porque Alexia não é mesmo flor que se cheire. Logo no início do filme vemos o que ela é capaz de fazer com um rapaz que se lhe apresenta com um fã e tenta beijá-la à força. Alexia começa aí uma espiral de violência que coloca as pessoas próximas e a ela própria em perigo, ainda mais quando inicia uma jornada impensada longe de casa.

Terror corporal

Os filmes de Ducournau estão muito ligados ao que se chama de body horror (ou terror corporal), algo associado ao cinema de horror que se baseia na violação ou deformação do corpo humano, o que geralmente envolve muito sangue e vísceras expelidas. Seu filme anterior, Raw, mostra uma garota vegetariana que, depois de um trote ao entrar na universidade, começa uma obsessão por carne humana.

Há um precedente na França das últimas décadas a partir de uma onda de filmes de terror conhecida como extremismo francês, obras visualmente pesadas e brutais (tais como Alta Tensão, de Alexandre Aja, e Mártires, de Pascal Laugier), da qual a própria Ducournau faz parte. Além disso, sobram associações entre os filmes dela e do diretor canadense David Cronenberg, essencialmente um cineasta do corpo e muito interessado na interrelação entre corpo e maquinário (sua obra-prima Crash – Estranhos Prazeres é um ótimo exemplo disso).

Ducournau, por sua vez, utiliza tal estética do horror extremo para falar de aceitação e pertencimento – sejam eles emocionais, sexuais ou familiares. Na verdade, Titane lança tantas questões sobre a vida e a existência de sua protagonista que muitas delas ficam em suspenso; ou o filme, não estando interessado em amarrar todas as pontas, deixa muitas questões livres para que o espectador se resolva com elas.

Isso faz com que o longa caia na armadilha do choque fácil, das cenas que querem impressionar pela sua rudeza e violência, e se descuide de certos pormenores que envolvem a verossimilhança das situações – o disfarce de Alexia é um desses casos. Titane, portanto, equilibra-se o tempo todo entre o impacto visual e o emocional, sendo este último ainda relegado a segundo plano.

A violência do filme, portanto, é gráfica, e parece interessar muito à cineasta as transformações corporais que tomam de assalto a protagonista – Alexia experiencia uma espécie de gravidez enquanto tenta se encaixar em uma nova rotina familiar. Há um curta da diretora, chamado Junior (também disponível na MUBI), que lida com essas mesmas questões de mutação do corpo.

Pai e filha/o

Outro elemento que ganha importância no filme são as conexões familiares tortas. A começar pelo acidente de carro na infância, momento em que o filme já nos revela uma relação aparentemente conflituosa entre a pequena Alexia e o pai, algo que evolui para uma grande frieza entre os dois quando ela cresce – a maneira como ela se “despede” dele na primeira parte do filme é aterradora.

Mas uma outra relação pai/filha(o) se desenha na trama a partir da inusitada aproximação de Alexia (agora uma espécie de fugitiva, depois de cometer atos brutais que lhe escaparam do controle) com o brigadista Vincent (vivido pelo ótimo Vincent Lindon). Homem brutalizado, teve um filho pequeno desaparecido no passado e sofre com a ausência.

Sua carapuça de homenzarrão agressivo logo dá lugar ao pai emocionalmente carente ao encontrar Alexia, ao mesmo tempo em que nem ela mesma sabe ao certo o que esperar disso. A relação que se desenha entre os dois segue entre a brutalidade e a necessidade de aceitação, ambos afetivamente esvaziados pelas circunstâncias da vida.

dentro desse contexto, Alexia precisa aprender não apenas a se enquadrar na sua nova estrutura familiar, ainda que frágil, mas também se enturmar com os demais rapazes que trabalham com Vincent. Aí afloram os desejos sexuais e se intensificam as mutações agudas em seu corpo. A partir daí Titane oferece um show de estranhezas que não poderia ser menos que impactante, para o bem ou para o mal, dadas as pretensões da realizadora. Desse cinema de incômodos, é impossível sair indiferente.

Titane (França/Bélgica, 2021)
Direção: Julia Ducournau
Roteiro: Julia Ducournau

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 30/12/2022)

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