Estranhamente, despois da ótima Trilogia da Vingança – Oldboy se mantém ainda como uma obra-prima do tema –, alguma coisa parece que mordeu Park Chan-wook. E curiosamente foi a partir do seu filme de vampiro Sede de Sangue. Desde então seu cinema passou a ser esquemático, um tanto cínico, com algumas doses de piruetas narrativas que se querem inventivas, mas principalmente fez filmes cada vez mais “espertinho”, como se olhassem para si mesmos dissessem o quão inteligentes eles são.
Park é um encenador exemplar, sabe elaborar e bem as cenas, mas caiu na armadilha dos filmes que precisam surpreender o espectador – Oldboy até tem essa surpresa no final, mas sustentada por uma complexidade narrativa que se amarra no desfecho e lhe garante a fora necessária para nocautear o espectador. Talvez a procura por superar esse momento tenha prejudicado seus últimos filmes. No entanto, esse problema não persegue No Other Choice, seu novo e – surpresa! – ótimo filme.
No centro da trama está Man-soo (Lee Byung-hun) um pai de família, funcionário bem-sucedido de uma empresa de papel que trabalhou ali por 25 anos. Um belo dia, ele é demitido. Começa uma jornada em busca de um novo emprego, a fim de manter o alto padrão de vida que oferece à esposa e dois filhos. Com a grande concorrência, ele resolve então eliminar os possíveis rivais de uma vaga para a qual ele se acha ideal, capaz de lhe tirar a corda do pescoço.
Com essa sinopse, pressupõe-se um drama intenso e uma narrativa policial que perpassa pelo debate sobre o capitalismo selvagem e as hipocrisias e crueldades do mundo corporativo contemporâneo, sem falar do peso moral que recai sobre a consciência do indivíduo. Tudo isso está lá, de fato, mas Park acrescenta pitadas de humor nonsense e até mesmo certa comédia escrachada que torna No Other Choice muito eficiente enquanto peça de absurdo sobre o estado atual das coisas no mundo cão das disputas empresariais, mesmo em um país rico como a Coreia do Sul.
O filme é hilário muitas vezes, sem perder de vista as discussões de caráter social, mas abdica de um possível tom empostado que poderia tornar tudo um tratado muito autoimportante sobre as entranhas do capitalismo. As comparações com Parasita, filme sensação de Bong Joon-ho, são inevitáveis já que o vencedor do Oscar porventura estabeleceu um parâmetro muito alto quando o assunto é embate social e de classes no país asiático, especialmente quando coloca em evidência a vida dos mais ricos em xeque. Há uma boa dose de humor também em Parasita, mas nada comparado ao que Park apronta na sua escalada ao ridículo que tem a morte e o horror como companheiros.
O maior trunfo de No Other Choice, certamente, está na maneira frontal de expor os conflitos e nunca esconder suas artimanhas. Somos testemunhas não só do chão de Man-soo desabando sob seus pés, mas sua gradual virada de chave na linha cruel que o torna um serial killer involuntário. É crucial a maneira como vemos o personagem vacilar, mas entrar numa espiral de mentiras e perversão sem volta. Park não esconde o sortilégio, nem as intenções de seu personagem, muito menos investe em mistérios e reviravoltas a fim de tornar a trama mais “surpreendente”. Nesse sentido, faz um filme mais sincero e acerta no coração das hipocrisias – humanas e profissionais.
Se há um cinismo aqui, ele é fruto muito mais das manobras arquitetadas por Man-soo e suas eventuais esquivas diante do poder policial e empresarial, como comentário sarcástico sobre as arbitrariedades da Justiça, sem nunca precisar apela para moralismos. Mesmo que o personagem consiga isso meio que atrapalhadamente, o filme o coloca em posição legítima de jogador que dá suas cartadas e enfrenta com brutalidade uma elite que enriquece às custas do trabalhador – elite que, paradoxalmente, ele anseia alcançar e nunca mais sair daquela posição.
No Other Choice (Eojjeolsuga Eobsda, Coreia do Sul, 2025)
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi e Jahye Lee