Em 1993, a Nigéria passava por suas primeiras eleições presidenciais democráticas desde que os militares assumiram o país em sucessivos golpes de estado após a independência nos anos 1960. O pleito é comandado pelas forças militares e teme-se que eles anulem ou fraudem as eleições. O processo de contagem dos votos e a tensa espera pelo resultado é o pano de fundo de A Sombra do Meu Pai, longa de estreia do cineasta nigeriano Akinola Davies Jr.
Mas esse é um filme de família, como prenunciado no título, sabidamente um conto de tons autobiográficos por parte do diretor. Os irmãos Akin e Remi, 11 e 8 anos, também anseiam por ventos mas estáveis, mas numa ordem mais íntima: esperam a chegada do pai. Ele vive e trabalha na capital, Lagos, enquanto os meninos moram em uma vila no interior do país junto com a mãe. A ausência do pai é bastante sentida, enquanto a mãe, pilar de sustentação da família, não aparece na trama. Em alguma medida, os garotos refletem uma Nigéria desamparada e pouco assistida – não por capricho dos pais, mas por força das circunstâncias em um país tão brutal.
A aparição da figura paterna se dá de modo inusitado: de repente, o pai está em casa, banho tomado, se vestindo para voltar a Lagos. Propõe que os garotos partam com ele em um passeio de um dia antes que a mãe deles retorne e impeça a aventura. Começa, então, uma jornada de descobertas.
Pelos olhos das crianças, descobrimos a capital nigeriana enquanto os garotos descobrem o próprio pai, seus afazeres e agruras, suas amizades e amores, ainda que pelas entrelinhas e encontros cruzados. A dificuldade de ser remunerado dignamente pelo trabalho realizado é uma verdade enfrentada pelo pai. Os irmãos pequenos que se reconectam com a figura paterna descobrem também uma Nigéria mergulhada em caos e esperança, um país de pai ausente, ainda que vibrante na movimentação das ruas, na luta diária do povo.
Davies Jr. filma uma Lagos sem exotismos. A fotografia do filme foge das tonalidades mais quentes. É uma capital quase cinza, permeada pela correria e desordem cotidianas, acentuadas pelas cores vivas das roupas das pessoas nas ruas. Mas a instabilidade da situação política se sente também naquele ambiente, assim como os casos de violência policial se escutam nas trocas de palavras também através da mídia. O filme lança sua cartada fatal ao afunilar cada vez mais os polos de conflito da narrativa, em que o pessoal e o público, o macro e o micro, estão mais conectados do que se imagina.
A riqueza do filme está em fazer dessa história de formação um conto de reencontro e amadurecimento, sem deixar de mirar na tragédia que se anuncia e fica cada vez mais evidente. A inocência infantil começa a ser quebrada pelo contato com uma vida mais palpável e com a realidade de um país africano que amarga seu histórico de instabilidades políticas e econômicas. A força de vontade de um pai para sustentar mulher e filhos esbarra nas lacunas afetivas que sua ausência causa no seio familiar; esse mesmo pai tem um compromisso com as lutas sociais de seu país, mas será que vale o sacrifício?
São muitos os dilemas que perpassam pelos caminhos dos personagens, tudo isso deflagrado em um único dia. Davies Jr. não esconde o traço de afeto que exala dessa reunião, mas entende que os laços atados ali são também muito frágeis – apesar de permanecer viva na riqueza da memória. Sem nenhuma romantização, A Sombra do Meu Pai consegue ser duro e doce, mantendo a sensibilidade em compreender que tentar restituir os laços familiares é tão importante quanto ajudar a consumar e erigir as estruturas democráticas de um país.
A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow, Nigéria/Reino Unido/Irlanda, 2025)
Direção: Akinola Davies Jr.
Roteiro: Akinola Davies Jr. e Wale Davies