Eu já escrevi aqui antes que os filmes do Radu Jude podem vir em duas chaves distintas: uma muito séria e formalmente rigorosa ou outra totalmente oposta que trabalha com o deboche e a ironia escancarada, sem medo de apostar no escracho. O seu Dracula, que também passa nesta edição da Mostra SP, faz parte desse segundo grupo, quando ele pisa o pé na jaca. Mas Kontinental ’25 talvez seja uma mescla dessas duas vertentes, ainda que penda para um humor fino que tem sido sua especialidade.
Acompanhamos um homem sem-teto que vaga pelas ruas de Cluj, capital da Transilvânia, onde a trama se passa. Ele mendiga, pede dinheiro e emprego, cata comida aqui e ali. É uma presença indesejada na paisagem urbana, mas vaga e trafega entre as grandes praças da cidade e as ruelas e becos sujos. Na verdade, ele está ocupando o porão de um prédio, entre caldeiras e encanamentos encardidos. Sua presença já seria suficiente para se discutir miséria e direito à moradia no país.
Mas o filme pertence mesmo a Orsolya (Eszter Tompa), uma oficial de justiça, fazendo as vezes de assistente social, que tem a ingrata tarefa de despejar o homem do lugar já que o prédio será reformado para se tornar um hotel de luxo. Mesmo agindo com cuidado e atenção, ela não consegue evitar uma tragédia. E passa a alimentar uma culpa moral por não ter conseguido ajudar o pobre cidadão.
É como se o filme partisse de um dado social cru para investigar os dilemas morais não apenas dessa personagem e outros interlocutores que acabam sendo seu suporte emocional, alguns deles também com suas dúvidas existenciais, mas de toda uma sociedade romena repleta de contradições. Aqui Jude encontra o terreno ideal para revirar pelo avesso os sentidos de justiça, moral cristã, ajuda humanitária, tradição e modernidade.
Não é só uma piscadela para o Drácula, mas o fato o longa ser ambientado na Transilvânia faz surgir na trama uma discussão sobre o pertencimento da região ao húngaros, sendo a própria protagonista uma mulher húngara radicada na Romênia. Xenofobia e identitarismo geográfico passam a se somar aos temas que atravessam o filme.
Não há de fato desdobramentos no roteiro, para além do incidente inicial, que altere o curso da trama. Veremos Orsolya carregar esse remorso à exaustão, de modo reiterativo até, nas conversas que ela trava com pessoas próximas. Mas é esse o motor de sustentação que faz de Kontinental ’25 mais um estudo agudo sobre as contradições, morais e históricas, de uma sociedade marcada por intensos conflitos de formação e identidade – nada tão distante do Brasil. É quase como se, junto com Não Espere Muito do Fim do Mundo e Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, se formasse uma trilogia das vicissitudes romenas – o roteiro do filme atual saiu premiado do Festival de Berlim.
Trata-se de uma investigação acidamente temperada com piadas sujas, ironias cortantes, gracejos politicamente incorretos, mas no fundo sinceros. É uma maneira muito sagaz de discutir os meandros políticos do dia a dia, sem reivindicar para si um lugar militante dentro do debate social, especialmente por costurar tudo com sarcasmo e as diatribes costumeiras do diretor. Kontinental ’25 certamente não possui a mesma intensidade de escracho dos outros dois filmes anteriores citados, mas não deixa de ser mais um acerto no alvo da moralidade de um país.
Kontinental ’25 (Idem, Romênia/Suíça/Luxemburgo/Brasil/Reino Unido, 2025)
Direção: Radu Jude
Roteiro: Radu Jude