Laura (Paula Beer) acompanha o namorado em um passeio no campo com os amigos dele, mas ela não está feliz. Seu olhar é melancólico, desanimado, como a dizer que algo não está bem, apesar de que nem ela mesma consegue explicar por que. Passando de carro pela casa de Betty (Barbara Auer) no meio da estrada, elas trocam olhares rápidos, mas cúmplices.
Christian Petzold parece ter se especializado nesses personagens emocionalmente instáveis que tentam manter certa naturalidade, mas expressam angústia pelo olhar – e os olhos de Beer são suficientemente expressivos para tal. Mais do que mera musa do diretor alemão, ela se tornou uma intérprete ideal para esse tipo de descompasso interno que os personagens de Petzold experimentam com certo mistério que desafia o espectador.
Mal sabe Laura que, após um trágico acidente, ela logo voltará a cruzar o caminho de Betty, que irá acolhê-la em sua casa. E agora é o olhar angustiado, e também assustado, dessa mulher mais velha que o filme passará a interrogar enquanto as duas se aproximam cada vez mais, numa espécie de acolhimento silencioso e mútuo.
Como em Cidade dos Sonhos, uma Betty (a personagem de Naomi Watts, no caso do filme de David Lynch) acolhe uma mulher recém-saída de um acidente, perdida e fragilizada, que precisa de ajuda para encontrar seu rumo na vida (e sua memória). Aqui, por outro lado, é Betty quem vê em Laura uma oportunidade para recuperar o prazer de viver, tudo isso sem os delírios ou pirações lynchianas, apenas a projeção psicológica que uma lança sobre a outra.
Essa virada de perspectiva é importante porque o conflito pessoal de Betty e sua família – não demoram a entrar em cena “seus homens”, o marido e o filho já crescido – acabam sendo a espinha dorsal do drama e ele só se revela, de fato, no terço final do filme (tanto para nós como para a própria Laura), ainda que seja facilmente identificável muito antes disso. Isso faz de Mirrors No. 3 um dos longas menos intensos de Petzold da última década, mas não menos interessante já que a condução firme do diretor garante a sustentação sensível do melodrama.
Ele carrega, no entanto, uma outra marca que também já podemos associar ao diretor: as incertezas e inconstâncias emotivas prestes a explodir, mas represadas pelo controle que os personagens tentam manter sobre seus próprios anseios, tudo isso em meio a uma melancolia ensolarada que ambienta os passos desses homens e mulheres que vagam pelo mundo com suas volatilidades emocionais.
Mirrors No. 3 (Miroirs No. 3, Alemanha, 2025)
Direção: Christian Petzold
Roteiro: Christian Petzold