Mostra SP: Sirât

A senha está dada já na epígrafe inicial: “sirât” refere-se, segundo a crença islâmica, à ponte que liga paraíso e inferno, a linha tênue como a lâmina de uma espada que representa o caminho da vida – e da morte também, elas que são faces da mesma moeda. Oliver Laxe lança seus personagens no coração do deserto marroquino, em meio a raves ensandecidas, para criar uma grande alegoria sobre a vida e as dores que colecionamos enquanto tentamos passar pela existência.

Para tal, elege um pai (Sergi López) com seu filho pequeno (Bruno Núñez) que buscam o paradeiro da filha/irmã mais velha, possivelmente embrenhada por entre festas e curtições no deserto. Nada sabemos dos motivos de sua fuga (se é que, de fato, fugiu) ou maiores detalhes dos imbróglios de família que os separam. O pai em especial parece empenhado na busca, emocionalmente precisado de reencontrar a jovem.

Mas o que importante aqui é o trajeto e bem menos as razões ou os desdobramentos do conflito familiar que se desenha ali. Sirât é uma verdadeira experiência sensorial e sonora, intensa na maneira como o som pulsa na paisagem inóspita e grandiloquente do deserto, na forma como as pessoas se entregam à música e a uma catarse quase espiritual, de transcendência através do som e do movimento do corpo.

O filme demora a chegar a seu verdadeiro ponto de provação, mas será implacável quando acontecer. Por conta disso, tem sido apontado como sádico por muitos. Isso porque, se a trama prenuncia tragédias desde o seu início, ela guarda para mais da metade o evento trágico que marca uma virada inesperada no trajeto dos personagens, a grande derrocada em direção ao horror. Pai e filho fazem amizade com um grupo de amigos que estão curtindo a rave. Toda a festa será ameaçada por forças militares que põem fim à alegria, sem mais explicações, mas o grupo consegue escapar e empreende uma viagem solitária deserto adentro. É através da jornada desse grupo e das provações que eles enfrentam que Laxe empreende sua visão sobre o calvário da vida.

Quando Sirât revela suas verdadeiras intenções, faz os personagens viverem situações limites e impactos emocionais súbitos. No entanto, diferente do sadismo de que é acusado (e diferente de certo cinema de choque que vem sendo feito e comemorado por aí nos últimos anos), Sirât oferece alguma empatia: o filme e seu diretor/roteirista não parecem se divertir com o sofrimento dos personagens, não há prazer em vê-los padecer. Não há sequer cenas mais gráficas que outros cineastas adorariam estampar como sinal de “provocação”. Pelo contrário, quando a tragédia se apresenta ao grupo, todos sofrem e sentem o peso da dor (do destino?) sobre os ombros, inclusive o espectador.

É com pesar e sem cinismo que o filme mira na tragédia como modo de expiação, sem se esquivar da imprevisibilidade dos infortúnios e da inevitabilidade das dores. Como metáfora da passagem humana pela existência, a tal ponte entre paraíso e inferno, Sirât nada mais é do que uma jornada existencial bruta travestida de festa. Em determinado momento, o grupo encontra um jovem pastor de ovelhas, a quem pede ajuda. O rapaz, habitante local, apenas dá as costas e segue seu caminho, como a dizer: “a sua jornada não me diz respeito; eu sigo a minha, sigam a de vocês”. Parece brutal, mas é só a vida acontecendo. E, afinal de contas, a vida não é feita disso, som e fúria, dança e morte?

Sirât (Espanha/França, 2025)
Direção: Oliver Laxe
Roteiro: Oliver Laxe e Santiago Fillol

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