O Conde

Criaturas históricas*

O que Pablo Neruda, Jacqueline Kennedy, Lady Di e Augusto Pinochet têm em comum? Todas essas personalidades históricas foram retratadas pelo cineasta chileno Pablo Larraín nos últimos anos. Antes de serem cinebiografias convencionais, os filmes lançam um olhar muito compreensivo para momentos muito específicos da vida de cada um deles.

Mas nenhum recebeu um tratamento tão farsesco e destemido, passando pelo terror e pela comédia, quanto o ex-comandante do Chile (que ficou no poder entre 1973 e 1990), um dos ditadores mais conhecidos no mundo todo. Pinochet é revivido por Larraín em O Conde, filme que acabou de sair do Festival de Veneza com o prêmio de Melhor Roteiro e foi lançado diretamente na Netflix.

O icônico personagem é agora visto como um vampiro que sobreviveu até os dias atuais refugiado em uma ilha, tendo a companhia de sua mulher, Lucia (Gloria Münchmeyer) e de Fyodor, um fiel e prestativo empregado (interpretado por Alfredo Castro, antigo colaborador do cineasta).

Esse velho Pinochet, porém, está cansado da vida e pretende se deixar ir. Para isso, precisa abandonar a dieta a base de sangue humano – geralmente abastecido por um estoque de corações que ele bate no liquidificador como uma vitamina para tomar. É esse sangue que o mantém vivo, mesmo em estado de velhice.

A possível morte do antigo déspota desperta a atenção dos cinco filhos do casal que retornam para a ilha, de olho na herança familiar na qual eles não veem a hora de por as mãos. Um detalhe importante: nenhum deles é vampiro, nem mesmo a mãe – eles só se transformariam caso fossem mordidos por um, algo que Pinochet se recusa a fazer. O único que passou por esse processo foi Fyodor, personagem que serve obedientemente aos patrões, mas guarda também seus segredos.

Vampirismo social

O cinema chileno não esconde seu interesse em investigar o passado histórico do país, em especial os anos da Ditadura Militar, com muito frescor e senso crítico. O Conde se soma a uma outra produção recente, também disponível na Netflix, intitulada 1976, da diretora Manuela Martelli, sobre uma mulher que ajuda um jovem perseguido acusado de atitudes subversivas.

O próprio Larraín desenvolveu uma trilogia que se passa neste período (formado pelos filmes Tony Manero, Post Mortem – o melhor deles, aliás – e No, este último protagonizado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro). Esse conjunto de obras, para ficar em poucos exemplos, toca fundo na ferida aberta dos governos ditatoriais, tão comuns na América Latina, e não tem receio de evidenciar as contradições daqueles que viveram aquela época, independente de que lado estivessem.

Mesmo não transcorrendo naquele momento, O Conde está muito interessado em pensar no rastro de violência e no desamparo econômico que Pinochet deixou no seu governo. A própria ideia de consumir sangue humano através do coração das pessoas é uma metáfora incrível sobre a exploração da gente comum, também sobre a morte e o desaparecimento de tantos que pereceram diante da repressão, da perseguição política e da tortura.

O filme toca ainda em uma questão crucial: o patrimônio financeiro que Pinochet acumulou à custa do povo chileno. Diante da descoberta de diversas contas fantasmas e imóveis que ele adquiriu para sua família, o ditador é confrontado quanto ao enriquecimento ilícito, mas segue justificando tais desvios como uma espécie de direito adquirido pelo trabalho que desempenhou em seu governo.

Tudo isso faz de O Conde um conto mórbido, mas muito sagaz e repleto de escárnio, sobre os desígnios do poder ditatorial, melhor maneira de lidar com um tema político já tão explorado sem cair nos lugares-comuns de sempre. Ao dar voz a esse personagem, o filme consegue exercitar a troça com liberdade de crítica mordaz.

Terror e humor

O filme que Larraín fez sobre Neruda já possuía alguma picardia e certo senso de sarcasmo. Mas nada se compara à ironia fina que o cineasta usa aqui para descortinar as vicissitudes de um Pinochet envelhecido que carrega o peso de suas atitudes do passado.

Apesar do tom farsesco, O Conde consegue ser muito pesado e sanguinolento também – o que justifica a bela fotografia em preto-e-branco, com ares acinzentados e de velharia. A frieza dos personagens e o elemento sangue dão corpo a essa dimensão sombria que paira na narrativa.

Entre o terror e o humor, o filme faz a sua caminhada a fim de dissecar o legado pavoroso deste homem. Para reforçar isso, há outra personagem crucial que ajuda a dar corpo a essa dualidade narrativa. Carmem (Paula Luchsinger) é uma freira que se passa por agente contábil, infiltrada na casa de Pinochet com a desculpa de passar a limpo as contas do ex-governante.

Mas ela, na verdade, é escalada para exorcizar o velho e destruir o mal que lhe habita – uma visão catolicista um tanto ingênua, mas pertinente aqui, depois que a Igreja Católica descobre o paradeiro do antigo líder. Nas conversas que ela tem com Pinochet, sobressai o melhor das tiradas cômicas do filme, uma vez que ela assume também uma posição cínica diante das arbitrariedades daquela família.

Ela também vai perceber que se envolveu em um caso anterior à história chilena. A introdução do filme dá conta de mostrar que o velho vampiro é muito anterior ao Chile e provém da monarquia francesa, séculos antes, tendo fugido e se adaptado a um país novo da América do Sul, já que é imortal desde que se transmutou nessa criatura bebedora de sangue.

O melhor de tudo é a sacada genial que se faz em relação à narradora do filme (voz de mulher falando em inglês), um tanto deslocada no início, mas que se justifica e tem uma participação crucial no desfecho da trama. O Conde pode até ter um ritmo irregular, mas as escolhas narrativas que se escondem pelas brechas de uma história insólita e fantasiosa são capazes de lançar luz sobre um passado nefasto com uma sagacidade a se festejar.

O Conde (El Conde, Chile, 2023)
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Pablo Larraín e Guillermo Calderón

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 08/10/2023)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos