Olhar de Cinema: Filme Particular

Não dá para negar que Filme Particular possui uma estrutura, no mínimo, curiosa; em alguns casos, pode também soar até surpreendente não o dispositivo em si (a reprodução de uma tela de computador na imagem do filme, elaborada como um jogo de montagem e dedução que se forma diante dos nossos olhos), mas a maneira como ele se apresenta para nós. Por um lado, o filme é bem didático no seu início: dá conta de revelar como a diretora conseguiu comprar um carretel de um filme antigo em 16mm pela internet e de como ela pretende nos mostrar integralmente, de início, os 19 minutos dessas imagens, acompanhadas apenas por uma trilha musical que ela mesma sobrepôs ao filme. Depois disso, no entanto, não sabemos o que nos espera até que o real propósito venha à tona.

Mas antes disso, é preciso falar das imagens originais: trata-se de filmagens antigas situadas na África do Sul, como um tour por vários lugares, começando por um safári, passando por uma cidade costeira, com praia, há encontros sociais de uma certa elite, passeios pelo interior e encontros pessoais no que parecem ser eventos oficiais administrativos. Passa como um filme de viagem, muito embora dá a entender que está centrado na experiência de uma família branca, abastada, que vive no país ou que passa um tempo ali. Pouco importa, na verdade. O que fica fácil de entender é que estamos inseridos no contexto do apartheid social sul-africano, visto a partir de um olhar do sujeito branco.

As imagens são difusas, sem seguir uma sequência lógica de coisas, registros de percursos que levam aquele “cinegrafista” (ou aqueles, não sabemos quantas pessoas registraram aquelas imagens) por paisagens sociais e humanas muito características e reveladoras de um estado de coisas no país africano. É então que, após mostrar tais imagens, a diretora Janaína Nagata começa a desenvolver um trabalho de pesquisa na própria tela do filme que se divide entre as imagens do carretel, à esquerda, e uma aba (ou várias) do Google, à direita. Ali, ela busca extrair o máximo de informação que é possível sacar da imagem, partindo de detalhes, como a inscrição de uma placa ou até mesmo através da estrutura de um prédio ou fachada que, quando pesquisados na internet, nos revelam mais do que a imagem, em primeiro momento, é capaz de dizer.

O filme funciona como um princípio de quebra-cabeças em que as imagens originais do carretel funcionam como peças do jogo que precisam de outras peças para serem interligadas. À medida em que a pesquisa avança, as cenas vão ganhando dimensões mais amplas, sua conotação se alarga e a estrutura de um país arrasado por uma política social de discriminação e racismo vai se tornando mais evidente na sua sutil crueldade. É claro que isso se faz muito pelo trabalho quase jornalístico que a diretora empreende em busca de informações e dados históricos que escapam da imagem, mas é importante notar que isso se dá também pela manipulação da imagem. Nagata vai e volta o filme do carretel, pausa, dá zoom, acelera e põe em câmera lenta; enfim, revira do avesso o que passou diante dos nossos olhos, reforçando o poder inerente da própria imagem, ponto de partida das potências e vestígios do real (lição que Antonioni já havia nos deixado em Blow-Up, em que uma foto, se vista com cautela e curiosidade, revelava um assassinato; ou, parafraseando José Saramago, é preciso olhar para ver e ver para enxergar).

Filme Particular é, essencialmente, uma obra de investigação. O jogo de cena que ele arma e nos apresenta ao longo da projeção tem a capacidade de nos deixar presos à tela porque seu processo é o de elucidação – seja dos temas como também do próprio dispositivo. Ver o passado histórico se descortinar diante dos nossos olhos e transbordar daquelas imagens aparentemente banais e prosaicas é uma das forças do filme. O dispositivo, no entanto, além de não ser necessariamente novo, causa um certo desgaste no terço final do filme, uma vez que o frescor pela descoberta de sua própria engrenagem já passou.

O que resta é a força daquilo que ele apresenta, os enredos engendrados, os personagens descortinados – a “trama” do feiticeiro milionário, por exemplo, é estranha e fascinante ao mesmo tempo, além de nos apresentar um sujeito que complexifica o sentido histórico do apartheid e as suas muitas particularidades. Mas o filme também se “acanha”, pela própria estrutura um tanto fria e mecânica da qual se compõe, em articular melhor e mais a fundo os achados que faz ao longo da trama. É claro que as escolhas da cineasta e do trabalho de montagem, assinado por Clara Bastos, já revelam muito de suas intenções e interesses, mas é também uma posição assumida essa de deixar no ar as muitas interpretações que o filme pode gerar a partir da sua articulação narrativa. O quanto essa decisão reflete na maneira como cada um lida com a imagem, com sua manipulação e com suas potências, é onde reside o maior risco de Filme Particular.

Filme Particular (Brasil, 2022)
Direção: Janaína Nagata
Roteiro: Janaína Nagata e Clara Bastos

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