Olhar de Cinema: Alan

Figuras do underground sempre pareceram fascinar os diretores Daniel e Diego Lisboa, menos como simples objetos de análise e mais como polos de atração que, de alguma forma, engajam uma proximidade com os realizadores. Alan é um grande exemplar desse tipo de relação que se estabelece entre cineastas e seu “personagem” porque o próprio filme se desenha a partir desse encontro que guarda muito de uma cumplicidade e amizade entre eles, embora seja evidente que estejam em polos sociais distintos.

Alan faz rap, hip hop e, em certo momento, passou a ficar conhecido por invadir os palcos dos shows de artistas famosos que se apresentavam em Salvador. Ele não esconde o seu sonho: “ser descoberto por alguém” ou “conseguir algum patrocínio”, como repete algumas vezes. Alan vive o sonho do protoartista, aquele que quer ser, que se entende como tal (ele escreve diversas letras de música, incluindo aí um suposto hit que ele passa a cantar nessas pequenas participações clandestinas, o Favela, Favela), mas ainda não é visto como um cantor de rap justamente porque não foi “descoberto”.

Além disso, Alan vive na periferia de Salvador, dentro de um barracão, cata lixo para vender e sobreviver, tem uma vida bastante dura e miserável financeiramente. E a vida na quebrada oferece outras oportunidades, o mundo do crime anda sempre à espreita, convidativo, por vezes a única saída possível para quem precisa se livrar da fome. É nessa corda bamba que vive o protagonista, entre o sonho do artista e a miséria ao redor. Há, portanto, um fosso que se abre para Alan e que vai oscilando muito no decorrer do filme, entre altos e baixos, pelas oportunidades que (não) lhe surgem, pelos caminhos equivocados que ele segue.

O longa constrói-se a partir de imagens quase que amadoras, realizadas no decorrer de pouco mais de uma década, entre 1999 e 2012 – o que o torna também um filme de arquivo, mesmo que de um passado recente. A aspereza da vida e do corre de Alan ganha uma correspondência nessa imagem que é também seca, inconstante, tem algo de bruta, mas não necessariamente desordenada. O filme tem consciência dessa aspereza, do impacto que algumas dessas imagens provocam, mas transparece também um certo compromisso com a construção de um mundo – de uma vida – que é aquilo que é: feia, desdentada, ingrata, esperançosa; sobretudo, trágica.

Mesmo que marcado por certo afeto entre os dois polos – de quem está atrás das câmeras e do próprio Alan, à frente da imagem –, é um filme duríssimo e seco sobre um descaminho. O vetor do olhar também se inverte porque os diretores e demais integrantes da equipe aparecem em cena, assim como Alan, em certo momento, também assume a câmera e capta algumas imagens. Há uma comunhão que se costura ali, o que garante uma sensação conflitante entre o curso tortuoso que a trajetória dele assume e uma tentativa de fazer dar certo uma vida fadada ao esquecimento.

A maneira crua como essa imagem nos chega poderia ser acusada de espetaculosa, pela via da exploração da pobreza e da miséria, mas a impressão logo se quebra; primeiro porque o olhar dos diretores parte de um lugar de comunhão muito verdadeiro – Alan nunca é objetificado como exemplo de pobre preto periférico, antes como um amigo-futuro-artista que também é da periferia; depois, porque o filme mantém um ritmo tão frenético, a câmera é tão instável (tanto mais quanto quem a manipula é alguém sem experiência de filmagem, como o próprio Alan, ou os próprios diretores quando a intenção, lá no início do processo, nem era fazer um filme), que não há tempo, no nível estético, para algum tipo de fixação nessa imagem denunciadora das mazelas sociais.

Muito pertinente também que o filme se chame apenas Alan e não “Alan do Rap”, como poderia parecer mais tentador. Isso porque Alan do Rap é o artista que ele gostaria de ter sido, mas não foi; aquilo que nós, ao acompanhar essa história, também ansiamos por ver acontecer, até que a inevitabilidade das coisas bate à porta com força, esmurra e nos joga na cara a realidade brasileira – há uma cena específica, cortante, ao final do filme, que representa exatamente isso. Aí sim Alan pode ser visto como um personagem trágico da periferia de Salvador a refletir muitos outros que caminham pela mesma corda bamba.

Alan (Brasil, 2022)
Direção: Daniel Lisboa e Diego Lisboa
Roteiro: Daniel Lisboa e Diego Lisboa

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