Mostra SP: Com Hasan em Gaza

Com o épico Homeland: Iraque Ano Zero, o cineasta Abbas Fahdel construiu um díptico aterrador. Filmou a capital iraquiana antes e depois da violenta invasão estadunidense em 2003. O contraponto entre a vida cotidiana com as imagens dos escombros pós-guerra são brutais. O cineasta palestino Kamal Aljafari faz algo semelhante nesse Com Hasan em Gaza, mas sem a duplicidade dos registros. Ao se debruar sobre imagens antigas de Gaza, feitas em 2001, o diretor revela uma Palestina pulsante, não necessariamente feliz porque o terror já estava instaurado ali, mas ao menos mais inteira do que é hoje.

Dado o caos e o estado de destruição de que somos testemunhas, via noticiário e registros amadores atuais, é como se o filme prescindisse da contraparte contemporânea desse espelho partido. Já temos em nossas mentes e imaginários as imagens dos escombros e da devastação que insistem em impor sobre aquela paisagem – a ponto de a associamos sempre a uma terra devastada. Isso faz com que as imagens do passado recente resgatadas no filme de Aljafari carreguem algo de saudoso e vislumbrem um mundo com certa alegria.

É também uma espécie de found footage, ainda que sejas registros feitos pelo próprio cineasta, em alguma medida descompromissadas, mas sobretudo de observação ligeira que hoje possuem outro significado, sobretudo da espontaneidade e inocência das crianças ali retratadas. O Hasan do título é uma espécie de guia que ajuda o cineasta a procurar um antigo companheiro que ele conheceu quando ambos estiveram presos. Em liberdade, Aljafari busca o amigo sem sucesso e, hoje, revela-se que mesmo o Hasan nunca mais foi encontrado. É um retrato multifacetado de muitas ausências que estão em evidência no documentário.

Mas essa subtrama é quase um pretexto para justificar o retorno a essas imagens, já que o filme não segue a linha da investigação pessoal. Mais interessa aqui o que escapa nas imagens a partir dessa busca. Em certo momento, ouvimos o diretor falar para alguém: “Estou preparando esse documentário que só será mostrado daqui a muitos anos”. Não sabemos exatamente o quão assertiva era tal intenção naquele momento, mas inevitavelmente possui um força de não deixar escapar uma memória que corre o risco de se perder diante de tantas outras memórias trágicas. Isso apenas reforça a importância do trabalho de Aljafari sobre os arquivos e a construção dessa espécie de acervo possível que ele vem costurando desde filmes anteriores – como se elas fossem também estilhaços de memória.

E não se trata de saudosismo por uma vida de algum modo idílico aquilo que se mostrava ali, em contraste ao desastre atual – o massacre ao território de Gaza remonta a tempos bem anteriores e, naquele momento, a população havia passado pela segunda Intifada. Mas há respiro e vida pulsando diante do caos. Os registros intercalam a vida urbana cotidiana para logo em seguida nos lançar nos escombros de uma região recém bombardeada.

Aljarafi filma um quarto de criança, a pelúcia de uma Minnie bem à vista, enquanto ouvimos bombas explodindo lá fora. Na iminência do desastre e da morte, é como se o filme preferisse continuar registrando esses momentos carregados de vida – o riso e os pedidos das crianças para filmarem-nas, a alegria de correrem e brincarem na rua e na praia –, mas a violência lá fora não quisesse permitir. São imagens carregadas de lampejos de uma felicidade possível, na iminência de serem interrompidas.

Com Hasan em Gaza (With Hasan in Gaza, Palestina/Alemanha/França/Catar, 2025)
Direção: Kamal Aljafari
Roteiro: Kamal Aljafari

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