Mostra SP: O Som da Queda

O Som da Queda começa com personagens que perambulam, brincam ou trabalham em uma grande casa de campo no início do século passado na Alemanha. A propriedade será uma das personagens centrais de uma trama que vai e volta no tempo para acompanhar núcleos familiares a habitar aquela mansão – mesmo depois de mortas.

A cineasta alemã Masha Schilinski investe em um jogo sensorial sem se apegar a tramas e conflitos cerrados, antes desafiando o espectador a encontrar o fio de conexão entre eles, enquanto guia nosso olhar para aquilo que está subentendido na imagem, os não-ditos, pelo menos em primeiro momento. Propõe, com isso, um verdadeiro filme-labirinto que parece estabelecer suas próprias regras e caminhos narrativos, demonstrando segurança, dado o rigor da mise-en-scéne. Em seu segundo longa-metragem, Schilinski parece tatear um identidade muito própria, ainda que apontando para certo exercício de estilo.

Isso porque, aos poucos, o filme revela signos e elementos que se repetem e se renovam entre os acontecimentos de um e outro tempo. Certamente, é a iminência da morte o que mais une (e assombra) os personagens de início. Pessoas idosas, soldados que voltaram mutilados da guerra ou jovens com algum tipo de deficiência exalam certa morbidez nas suas ações e no seu vagar pela casa. Há ainda uma fixação nas fotografias de pessoas recém falecidas, antigo hábito cultivado em algumas culturas como forma de preservar, tal qual um último suspiro, a imagem final de um ente amado.

Recai, sobretudo, sobre as mulheres as opressões cotidianas de qualquer tempo histórico e um ciclo de violências que se perpetuam ao longo das gerações, outra recorrência demarcada pela trama. É através do olhar e das palavras dessas personagens que o filme acentua seu caráter político em meio a jornadas que parecem apenas íntimas. O filme se faz a partir das vozes femininas cujas percepções passam a ser a bússola moral que orienta as tramas entrelaçadas. Por outro lado, o excesso de narração contribui para que O Som da Queda também se acomode nas elocubrações feitas em off, como a traduzir as inquietações internas das personagens de modo muito tênue, permeado por um texto sempre muito difuso, como é próprio do fluxo de consciência, e em certa medida misterioso ou, mais arriscado ainda, desafiador, deixando muito para as entrelinhas.

Isso abre o caminho para que a diretora crie um mosaico de imagens e sons potentes, mas também reféns de uma elaboração que não pode (e nem quer) ser totalmente clara ou evidente na maneira de se conectar com as imagens. A fotografia soturna é primorosa, mas ganha também nuances mais “experimentais” (imagens desfocadas ou granuladas em certas cenas), o que em algum medida soa caprichoso e maneirista por querer mais surpreender e testar as possibilidades visuais que a trama permite do que apresentar um sentido narrativo mais perceptível.

As dinâmicas daquilo que se revela e do que se omite (começa com brincadeiras de esconde-esconde, além das muitas imagens que vemos através de fechaduras de portas e buracos nas paredes), apresentadas no primeiro núcleo do longa, parecem sedimentar o caminho dos personagens ao longo do filme. Este primeiro lastro espaço-temporal é, de fato, o mais interessante deles, o que melhor encerra as questões todas e que possui os personagens mais instigantes. Sozinho, talvez, daria conta de indicar as dores e fantasmagorias que permeiam a vida daquelas mulheres, de várias idades.

Ainda assim, o vagar daquelas pessoas pelos recantos da casa dita o clima melancólico que contamina todo o restante da narrativa que, se não se mostra necessariamente reiterativa, apenas desdobra em outros contextos históricos demandas e dilemas femininos muito similares diante das opressões sociais. A morbidez bucólica que se espalha por todos os tempos é como uma maldição encrustada nas paredes da propriedade. Enquanto os vivos movem-se por um mundo de crueldades e pequenas alegrias, os fantasmas apenas aguardam o som da próxima queda.

O Som da Queda (In die Sonne Schauen, Alemanha, 2025)
Direção: Masha Schilinski
Roteiro: Masha Schilinski e Louise Peter

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