Amores possíveis*
O cineasta goiano Daniel Nolasco é hoje um dos nomes fundamentais quando o assunto é cinema queer no Brasil. Deixando de lado os moralismos e sem pudores, seus filmes não se furtam de mostrar os personagens vivendo sua sexualidade – muitas vezes de modo explícito – e seus desejos com intensidade, também como forma de construir um imaginário outro para pessoas homossexuais.
É por esse caminho que segue o seu mais novo longa-metragem, Apenas Coisas Boas, já em cartaz nos cinemas, marcando o mês do Orgulho LGBTQIA+. A trama começa com um encontro inusitado: Marcelo (Liev Carlos) cruza de moto o território do interior de Goiás em direção a Minas Gerais, mas um estranho acidente o deixa ferido e jogado na estrada.
Quem o acolhe é Antônio (Lucas Drummond), que possui uma propriedade ali perto. Ele carrega o estranho para casa, cuida de seus ferimentos e lhe dá pouso. Demora poucos dias até que Marcelo se sinta melhor e para que nasça entre os dois uma atração natural, afetiva e sexual, enquanto Marcelo se recupera do acidente. Forma-se um casal e eles parecem estar muito bem com isso.
O fato de Marcelo ter uma vida fora daquele contexto não parece ser algo capaz de abalar a relação. Para Antônio, no entanto, as coisas são um pouco mais complicadas. Ele mora sozinho em uma propriedade que pertenceu à sua família. O pai, vivo e residindo em outro lugar ali perto, quer comprar a casa do filho, que se recusa com a venda, o que expõe as rusgas e os desentendimento entre os dois.
Fica claro que o descontentamento da figura paterna se dá pela homossexualidade do filho, tipo de postura que vai ao encontro do conservadorismo machista e homofóbico que reina nos rincões e interiores do Brasil, provocando uma cisão intransponível entre os dois.
Não demora muito para que as coisas entrem pelo campo da violência e dos embates armados, ainda mais agora que o filho anda para cima e para baixo na região com um namorado-amante. O cineasta utiliza as planícies abertas do cerrado do centro-oeste para criar um clima de western que remete à terra de leis próprias e à ferocidade dos comportamentos masculinos.
Dois tempos
Os desdobramentos do que se sucede a partir daí são típicos das tragédias anunciadas, mas também surpreendem pela forma abrupta e implacável com que irrompem na trama. Isso acaba jogando a narrativa para um outro polo de atenção, deixando uma marca dolorosa pelo caminho.
No futuro, veremos um dos personagens anteriores (agora interpretado por Fernando Libonati) vivendo em um apartamento na cidade grande e tendo de lidar com o desaparecimento repentino do seu atual companheiro. Sua frieza diante da situação pode supor que ele esteja envolvido com o caso, ou apenas sugere uma vontade de já ter dado fim àquela relação.
Apenas Coisas Boas desdobra-se em dois núcleos, criando narrativas distintas em vários pontos. Há tanto uma mudança no tempo-espaço da ação, bem como uma alteração brusca no tom do filme e nas próprias questões que ele passa a mobilizar a partir desse novo foco.
Se antes havia uma tensão familiar, reflexo do abalo nas convenções sociais diante das dissidências sexuais, agora o que se coloca em evidência é um mistério policial que parece ter muitas chaves de interpretação. E o filme não facilita a vida do espectador entregando saídas fáceis para esse enigma.
O homem vive no apartamento com seu jovem assistente (Igor Leoni) e conta com o trabalho de uma diarista (Renata de Carvalho) que cuida da casa periodicamente. Ela passa a suspeitar do dono da casa, enquanto o rapaz parece meio indiferente a tudo, talvez por enxergar aí uma chance de seduzir o chefe. As investigações policiais lançam mais peças e variações em um quebra-cabeças que o espectador também tenta montar.
Não deixa de ser uma mudança brusca no tom da trama essa que o filme promove e corre-se o risco de desequilibrar a balança. Essa segunda metade não só parece muito aberta em termos de enredo, mas mais fria, menos intensa. Rompe uma trama que sustentava muito bem o ardor e o carinho com que o casal se entregava um ao outro, de um lado, e as ondas de ódio contra as quais tinham de se proteger.
O que poderia ser
Mas tudo isso está a serviço de um estudo de personagens que estão condicionados às vicissitudes e às amarras de uma sociedade que lida muito mal com o amor de dois homens.
Ao filme interessa menos desvendar ou dar todas as respostas sobre o desaparecimento que se investiga na segunda parte ou mesmo sobre o desfecho do embate entre pai e filho visto no primeiro momento da trama. Mais forte que isso são as cicatrizes que o personagem carrega e como ele internaliza isso na indiferença do seu comportamento atual.
E também a maneira como o filme parece apontar para várias possibilidades do que poderia ter sido, do que é provável de construir ou destruir em termos de trajetória de vida diante da força das circunstâncias. O personagem mantém uma grande fotografia emoldurada na parede da sala – que ele tirou do seu quarto – com o registro dele e de seu namorado na juventude, lá na antiga propriedade rural. O que se passou de fato? Quem são os fantasmas dessa história?
O companheiro desaparecido tem o mesmo nome do namorado morto no passado, apontando para continuidades e rupturas que antes de fazerem sentido no fio narrativo realista da trama, buscam embaralhar situações para tratar de separações não curadas e cicatrizes inevitáveis. Nesse sentido, o filme contraria o seu próprio título, que poderia muito bem se chamar Apenas Amores Possíveis.
Apenas Coisas Boas (Idem, Brasil, 2025)
Direção: Daniel Nolasco
Roteiro: Daniel Nolasco
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 28/06/2026)
