Arquivos de resistência*
Em 1979, realizou-se em Roma a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, um dos maiores eventos promovidos pela militância de esquerda feito fora do país. Naquele momento, discutia-se o processo de redemocratização política – vivia-se uma ditadura civil-militar desde 1964 – e também a anistia aos presos e perseguidos políticos, muitos deles exilados no exterior – quando não mortos e tidos como desaparecidos.
É um pouco dessa história, mais especificamente as raras imagens dessa conferência, o que a cineasta Anita Leandro resgata em Anistia 79, documentário já em cartaz nos cinemas. O filme participou de importantes festivais internacionais, como o FidMarseille, e foi o grande vencedor da Mostra Tiradentes deste ano.
O resgate das imagens que o longa traz não se evidencia somente pelo gesto de realização do filme, mas também foi a própria cineasta quem encontrou tais imagens da conferência no acervo da Universidade de Nanterre, próximo a Paris. Muitas delas nunca tinham sido vistas no Brasil antes.
O diretora reúne no presente uma série de pessoas militantes, seja aqueles que estiveram presentes ali na conferência ou amigos e familiares dessas pessoas, que guardam uma memória de luta e resistência. A essas memórias somam-se agora os registros raros da conferência, que reacendem as discussões em torno da memória e da importância de preservar a história daqueles que dedicaram suas vidas à causa da resistência política.
Elas interagem com as imagens, reencontram versões suas ou de parentes próximos na juventude, mas sobretudo reconhecem os companheiros de luta que se reuniram naqueles três dias, no Senado italiano, muito por conta dos esforços dos chamados CBAs (Comitê Brasileiro pela Anistia).
Antes, houve em Roma, em meados daquela década, o Tribunal Russell II, evento europeu dedicado a denunciar para o mundo as atrocidades cometidas pelos regimes ditatórias do Brasil, Chile, Bolívia e Uruguai. O evento acabou servindo como parâmetro para a Conferência.
Um dos rostos que figuram como símbolo dessa luta pela anistia é o da pequena Eduarda, filha do jovem militante, Eduardo Leite, codinome “Bacuri”, que foi duramente torturado e morto pela Ditadura aos 25 anos de idade. A garota está acompanhada de sua mãe, Denise Crispim, também presa e torturada quando estava grávida, mas que conseguiu escapar e se exilar com a filha na Itália.
Confrontar as imagens
Mais do que trazer à luz essas cenas, Anistia 79 promove um exercício de reativação da memória, a partir de quem as vê no presente, em alguns casos pela primeira vez. Uma delas é Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de diversos presos políticos à época, também empenhado na criação do CBA de São Paulo.
Heloísa Greco era pequena quando acompanhou a mãe na Conferência, Helena Greco, política cofundadora do Partido dos Trabalhadores (PT) e criadora do Movimento Feminino pela Anistia, em Minas Gerais. Também assiste às imagens o seu criador, Hamilton Lopes dos Santos, responsável por registrar a Conferência.
O trabalho que a cineasta faz aqui da recuperação e ressignificação dessas imagens de arquivo é uma espécie de continuação ao que ela fez no seu longa anterior, Retratos de Identificação (2014).
Mais do que apenas usar os arquivos da polícia política brasileira para ilustrar a atuação de quatro militantes revolucionários da época, o filme utiliza os arquivos como guia narrativo da trama. Isso porque os relatórios criados pelos órgãos de repressão oficial, como o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), eram muito detalhistas e contavam com um aparato muito eficiente de perseguição e intimidação.
No filme novo, a diretora trata o material de arquivo não apenas como forma de identificar as pessoas e os debates travados na Conferência, mas se debruça sobre as imagens como reveladoras de discussões, sentimentos e apela para o sentido historicizante de suas reverberações.
Luta no presente
Se filmes de grande sucesso recentes, como O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, reacenderam, no campo da ficção, um debate público sobre a importância de não esquecermos a nossa História recente, Anistia 79 amplia essa discussão.
No fundo, o cinema brasileiro sempre se dedicou a fazer filmes de denúncia sobre a Ditadura brasileira, sobre os símbolos de resistência e, principalmente, sobre homens e mulheres que deram suas vidas ou tiveram de ser profundamente marcados pela violência do Estado.
Ou seja, o tema não é novidade, ainda que ele possa ganhar uma dimensão maior pelo próprio alcance que os filmes conseguem. Mas a importância do longa de Leandro está na interlocução mais detida que faz entre passado e presente. Entre aquilo que se construiu como resistência e marco históricos – a Lei da Anistia seria assinada justamente naquele ano de 1979 – e a necessidade de mantermos viva essa discussão diante das ameaças e ondas de conservadorismo que pairam por aí com saudades da Ditatura.
Os depoimentos vistos na Conferência são tão importantes quanto os testemunhos atuais de quem se depara com aquelas imagens hoje. Não apenas suas palavras, mas, antes disso, o semblante dessas pessoas dão conta de revelar a intensidade das emoções e o sentido de preservar não apenas as conquistas do passado, mas torná-las firmes e asseguradas ainda nos dias de hoje.
Anistia 79 (Brasil, 2026)
Direção: Anita Leandro
Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 23/08/2026)
