A Fabulosa Máquina do Tempo / Entrevista com Eliza Capai

Fábula no sertão*

A pequena cidade de Guaribas, no interior do Piauí, possuía um dos índices de desenvolvimento humano (IDH) mais baixos do Brasil e altas taxas de analfabetismo e pobreza, até que, a partir de 2003, passou a ser cidade piloto para o desenvolvimento do Bolsa Família, projeto de apoio social criado no primeiro governo Lula.

É para ali que a cineasta Eliza Capai leva sua equipe de filmagens para realizar o documentário A Fabulosa Máquina do Tempo, com foco nas meninas, filhas das mulheres que passaram a dominar a renda e a organização familiar com a ajuda governamental.

Porém, mais do que abordar os avanços sociais que a medida alavancou na cidade por mais de duas décadas, o filme está interessado na percepção infantil. Capai reúne um grupo de crianças que brincam, fantasiam e refletem sobre a sua realidade, com muita liberdade, mas tocando em pontos sensíveis daquele universo sertanejo e de poucos recursos.

“Eu conheci a cidade de Guaribas em 2013, dez anos depois do início do Bolsa Família, e a ideia era falar sobre a saída da miséria e o início do questionamento das relações de gênero”, afirmou a diretora em conversa com A TARDE.

A cineasta contou também que percebeu ali um forte contraste entre gerações. Enquanto as mães, que viveram situações de muita miséria na juventude, acalentavam o sonho de encontrar bons maridos que iriam valorizá-las, suas filhas, que agora possuem uma realidade mais segura, sem fome e já frequentando a escola, não pensavam em se casar, mas sim na sua própria independência.

“Há pesquisas que mostram que, nos rincões mais empobrecidos do Brasil, as mulheres, ao receber todos os meses essa pequena bolsa, sendo a única pessoa dentro de casa a receber algum dinheiro, iniciavam um movimento de mudança na dinâmica familiar e na relação de gênero. Portanto, essas questões são o início do projeto”, confidenciou Capai.

A Fabulosa Máquina do Tempo estreou mundialmente no Festival de Berlim, abrindo a Mostra Generation Kplus, dedicada à formação do público infanto-juvenil. Já passou por diversos outros festivais internacionais e também no Brasil, agora estreando comercialmente.

Meninas-mulheres

Ao encenar a criação do Homem por parte da figura divina cristã, uma das meninas questiona: “Por que será que Deus arrancou uma costela do Adão pra fazer Eva? Por que será que Deus fez as mulheres assim?”, ao que outra responde: “Ufa, ainda bem que eu ainda não sou mulher”.

Assim começa o filme, a partir do surgimento da luz no mundo – matéria-prima do próprio cinema – e, junto com isso, logo surgem as indagações de gênero. Apesar de lidar com crianças, as questões relacionados ao universo feminino, aquilo que a sociedade espera delas e as próprias demandas que elas sentem do mundo externo aparecem como temas inevitáveis, seja nas conversas com as mais velhas, seja nas brincadeiras mais inocentes.

“Para captar essa subjetividade delas enquanto meninas, me pareceu imprescindível entender como elas veem o mundo dos adultos. A diferença do ser homem, do ser mulher, do ser menina, do ser menino, e como elas observam aquela realidade e dialogam com ela”, observou.

O filme não tem medo, portanto, de conversar francamente sobre temas sensíveis, como menstruação, sexo, gravidez, namoro, casamento. Na verdade, faz disso sua maior força ao trabalhar as temáticas e propondo brincadeiras a partir isso. As garotas são impelidas a criar encenações de momentos em que elas lidam com tais questões, em um jogo de ludicidade e percepção sobre como elas enfrentam cada situação.

E dessa brincadeira, faz parte primordialmente o cinema. Elas são vistas não apenas como “atrizes” daquelas cenas, mas empunham e brincam com as ferramentas do próprio exercício cinematográfico, como claquetes, microfones e câmeras, como se fossem as próprias diretoras daquele “filme”.

Fábula no sertão

Com tudo isso, Capai cria um jogo que envolve a fantasia, mas desenvolve a própria autonomia daquelas meninas diante das possibilidades de elaborar suas vivências. Ao mesmo tempo, faz isso sem muita rigidez cinematográfica. Ao invés de buscar um lugar cada vez mais comum na fronteira entre ficção e realidade, o filme documenta o processo de criação e do brincar.

“A gente decidiu que a forma de entrar nisso era propondo uma oficina de vídeo. Fizemos com 15 meninas, de 7 a 12 anos. A partir dos exercícios que eram propostos em sala de aula e do que elas levavam, a gente começava a fabular juntas e entender a partir da observação delas como que essa história deveria ser contada”, explicou a diretora.

“E, por serem crianças, a forma de elaboração do real, muitas vezes, é através da fábula, do jogo. E a gente vai entendendo que pra compreender através dos olhos delas, a gente precisaria adentrar na brincadeira”, complementou.

A Fabulosa Máquina do Tempo constrói essa jornada com leveza e muita criatividade. Em determinado momento, elas chamam para a brincadeira uma jovem que costumava brincar naquele grupo, mas já passado dos 13 anos, não quer mais ficar com as pequenas. Mesmo assim, ela aceitar participar da brincadeira de fazer aquele filme, mostrando que a capacidade de brincar e de fabular a realidade reside em todos nós, independente da idade.

A Fabulosa Máquina do Tempo (Brasil, 2026)
Direção: Eliza Capai
Roteiro: Eliza Capai e Daniel Grinspum

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 02/08/2026)

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