O sentido de um lar*
As nuvens cinzentas e carregadas que apontam no horizonte parecem apenas um prenúncio de chuva forte, algo não muito incomum na cidade norte-americana de Seattle com seu céu nublado. Jason desiste da pescaria e parte para se abrigar em casa ao lado da família.
Mal sabe ele que ao entrar e fechar a porta atrás de si, estaria iniciando uma jornada de isolamento involuntário e desafiador. Isso porque um bizarro e absurdo fenômeno passa a acontecer: todas as portas, janelas e qualquer passagem para o lado de fora passa a ser bloqueada e impedida de se abrir, não importa qual força se aplique.
Essa é a curiosa premissa de A Última Casa, nova ficção científica da Netflix, já disponível no catálogo do streaming. Protagonizado por Wagner Moura, esse é o primeiro lançamento dele após o sucesso de O Agente Secreto. E não deixa de ser a continuidade da carreira internacional que ele vem construindo, com cada vez mais destaque, em Hollywood.
Ao lado de Greta Lee, eles vivem o casal que vai ter de se desdobrar para sobreviver naquela casa, enquanto do lado de fora a chuva e o tempo fechado tornam, aparentemente, o mundo todo um caos. Eles avistam pela janela vizinhos que estão passando pela mesma situação, aprisionados em seu próprio lar.
Possuem dois filhos, um rapaz adolescente (Noah Alexander Sosnowski) e uma filha menor (Riley Chung). São eles, especialmente a menina, que vão primeiro enxergar do lado de fora da casa as estranhas criaturas que passam a invadir o mundo terráqueo, possivelmente as causadoras do estranho fenômeno, capazes de manipular a água ou coisa parecida.
Dirigido por Louis Leterrier – mais conhecido por tramas de ação como Carga Explosiva, O Incrível Hulk e um longa da franquia Velozes e Furiosos –, o filme abraça o sci-fi especulativo, muito embora esteja mais interessado na dinâmica familiar diante da situação inusitada do que nos pormenores da invasão.
Ares pandêmicos
É inevitável não tomar o filme pela perspectiva da história de isolamento social que nos remete aos anos de pandemia recente. As forças sobrenaturais responsáveis pelo aprisionamento das pessoas em casa pode muito bem ser uma metáfora do coronavírus que obrigou a humanidade a se refugiar em seu próprio lar.
À época da pandemia, muitos filmes e produtos culturais tentaram encampar diversas leituras no calor da hora sobre o que estava acontecendo, seja através do resgate de obras anteriores que pareciam antecipar o isolamento social, seja pela criação de novas narrativas que tentavam captar a essência daquele momento em que todos estávamos vivendo.
A vantagem de A Última Casa é o recuo do tempo. Hoje já é possível refletir melhor sobre aqueles anos em que era preciso reinventar muita coisa estando apenas dentro de casa. É isso que fazem os personagens do filme, após o susto inicial e a descoberta de que não apenas eles, mas todos ao redor estavam vivendo a mesma situação.
Há muitos filmes sobre invasões extraterrestres e ataques por forças desconhecidos que fazem com que as pessoas tenham se esconder e procurar abrigo. Porém, em nenhum deles os personagens se viam obrigados a ficar presos dentro de sua própria residência, reinventando a vida.
Da mesma forma que se pensava que a quarentena provocada pela Covid-19 duraria poucos meses, mas foi se estendendo por mais de dois anos até a consolidação da vacina, o tempo em A Última Casa passa e os personagens aprendem não apenas a sobreviver em condições precárias e com poucos recursos, mas também a reestruturar os laços afetivos que os unem.
Confusão de gêneros
Entre ser um filme de isolamento, uma ficção científica de invasão alienígena e um filme de família, A Última Casa sofre de um certo transtorno de personalidade. Leterrier não é dos cineastas mais conceituais a ponto de transformar a trama em algo forte o suficiente para aglutinar todos esses polos. Está longe do que um M. Night Shyamalan poderia fazer e mais ainda do que Steven Spielberg demonstrou recentemente em Dia D.
O filme parece indeciso em apostar no insólito, no horror ou no melodrama com mais atitude, preferindo alternar entre eles e acaba por se perder nessa tentativa de equilíbrio. Essas são marcações de gênero complementares – a noção de família sempre foi uma presença forte nos filmes catástrofes. Mas aqui, parece haver uma desarmonia entre todos eles.
Talvez porque os personagens são sejam exatamente tão interessantes nos seus conflitos pessoais. Ou talvez a própria trama da invasão externa não ganhe tantos desdobramentos assim, funcionamento apenas como ameaça exterior que coloca os personagens em estado de alerta, garantido o suspense da trama vez ou outra.
Nesse sentido, vale destacar os trabalhos de Moura e Lee que fazem o que podem com seus personagens inconstantes, mas seguros do seu lugar na trama. Ele, especialmente, consegue encarnar o pai de família que se sente responsável pela segurança da casa, mas não deixa de demonstrar vulnerabilidade quando é preciso.
O roteiro, escrito por Matthew Robinson, até consegue criar alguns momentos realmente bonitos na dinâmica familiar – outros são muito apressados e sem muita constância – e na relação dos pais com os filhos. Mas são muitas lacunas e algumas saídas de roteiro questionáveis que tornam A Última Casa um passatempo fugaz, mais eficaz em dizer algo sobre o sentido de um lar em tempos de crise.
A Última Casa (The Last House, EUA/Reino Unido/França, 2026)
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Matthew Robinson
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 09/08/2026)
