Um jovem russo pode receber até 495 mil rublos, além de outros benefícios, caso se aliste para lutar na guerra contra a Ucrânia. Assim mostra um outdoor nas ruas visto por Gleb (Dmitriy Mazurov). Ele é o chefe de uma empresa bem-sucedida no interior da Rússia, burguês de família nuclear privilegiada. Mas recebe uma bomba: precisa indicar, dentre seus funcionários, aqueles que deverão ser enviados à força para a linha de frente da guerra.
Minotauro, novo filme do implacável Andrey Zvyagintsev, trabalha na surdina – assim como seu próprio protagonista irá fazer mais adiante. Isso porque o filme começa apontando para certo desconforto e tensão entre os funcionários da empresa, alguns querendo abandonar o trabalho, muitos da cidade tentando cruzar a fronteira com a Estônia. Aos poucos vamos entendendo o que se passa e para onde o filme aponta: a guerra e seus tentáculos de coação sobre a população, obrigada a servir e doar sua vida para uma causa imperialista, enquanto os endinheirados continuam usufruindo de seus privilégios, caso da família de Gleb.
Faz sentido que nem mesmo na divulgação do longa essa premissa esteja clara para o espectador em busca de algum detalhe mais específico. Falar abertamente da guerra na Ucrânia e, especialmente, das movimentações e violências do estado russo, com seu aparato de opressão, não é tarefa fácil para artistas, sob pena de perseguição e censura. Não à toa, Zvyagintsev vive hoje exilado na França (o filme não tem financiamento russo é o representante francês ao Oscar), bem como vários cineastas conterrâneos seus enfrentam a vigilância e a perseguição do governo Putin.
As marcas políticas contaminam a vida do protagonista, no entanto Minotauro toma um outro rumo que desvia o caminho que ele mesmo insinua. Gleb começa a desconfiar de uma possível traição de sua esposa, Galina (Iris Lebedeva). A narrativa, então, passa a se concentrar nas maquinações do marido em busca da verdade e de certa reparação, diante do ego e do moral machucados. É nessa escolha que reside o maior entrave de Minotauro: o longa prenuncia um tema que será preterido a outro bem menos interessante.
Essa dualidade entre o micro e macro, entre as forças do Estado versus as problemáticas familiares, já fazia parte da estrutura narrativa de um filme como Leviatã (2014), certamente o melhor de Zvyagintsev. Faz um bom par com este aqui na medida em que evoca em seu título uma figura mitológica e bestial, símbolo das forças primitivas que acometem os homens diante das circunstâncias políticas do mundo. Minotauro, por sua vez, não consegue alcançar a complexidade moral e as contradições que filmes anteriores do diretor (acrescenta-se aí o ótimo Sem Amor) apresentam, especialmente ao fazer um retrato dúbio de seus protagonistas.
Complica um pouco mais saber que este filme é uma espécie de livre adaptação de Uma Mulher Infiel, clássico de Claude Chabrol. O problema é que no filme francês a mira recaía sobre as vicissitudes de uma classe burguesa imperiosa. Ao evocar a guerra e suas próprias exigências sociais e depois abandonar a premissa em prol de uma trama “menor” ou menos interessante, o filme acaba dirimindo suas forças. Não porque os dilemas morais de um homem ferido na sua masculinidade não possam gerar uma reflexão afiada e, em certa medida, política na formulação das posições de gênero na sociedade, por exemplo, mas principalmente porque o que se apresenta a partir de então é um retrato muito banal e sem muito estofo de uma situação como essa.
O filme ainda tenta fazer uma conexão com as duas pontas, mas vai ficando cada vez mais evidente que seu interesse é mesmo a trama de mistério que toma o filme de assalto. O cineasta continua filmando com competência narrativa, apuro técnico e um domínio muito bom de timming, o que faz de Minotauro um longa em parte decepcionante por aquilo que ele indica, mas não consegue sustentar.
Minotauro (Minotaur, França/Letônia/Alemanha, 2026)
Direção: Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Simon Lyashenko e Andrey Zvyagintsev