Voando pelos sertões*
Gugu vive no sertão cearense e não esconde seus trejeitos afeminados, nem a sua disposição para se maquiar e se vestir de modo um tanto espalhafatoso no ambiente em que vive. Esse é o seu jeito e ele parece muito bem com isso. Ao mesmo tempo, é apaixonado por futebol.
A despeito do preconceito que sofre por pessoas próximas, inclusive do seu próprio pai, vivido por Lázaro Ramos, ele é acolhido por algumas colegas da escola e especialmente por sua avó (Teca Pereira), que está entrando em fase inicial de Alzheimer.
É esse personagem mirim incrível que sustenta Feito Pipa, produção cearense dirigida por Allan Deberton. O filme teve estreia mundial no início do ano no Festival de Berlim, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus (voltada para o público adolescente), e foi escolhido para representar o Brasil na próxima edição do Oscar. Na Mostra de Cinema de São Paulo, o filme teve uma sessão lotada com a presença dos realizadores e atores.
“Eu conheci o Yuri assim que cheguei para ensaiar em Fortaleza e imediatamente a gente teve uma sintonia”, afirmou Lázaro, em conversa exclusiva com A TARDE. “Nós temos um humor parecido, ele também começou a praticar arte no Pelourinho. Eu no Bando de Teatro Olodum e ele no Projeto Axé desde muito cedo. Então, foi uma identificação imensa”.
A presença de Yuri em cena é realmente uma das grandes forças de Feito Pipa. Ele se impõe como o próprio personagem se impõe, do alto de seus 12 anos de idade, perante a comunidade do interior nordestino que ainda preserva códigos de uma masculinidade embrutecida e que introjeta isso aos garotos do lugar.
Yuri foi escolhido em um teste com mais de 700 crianças. “Ele tem muita consciência cênica e foi lindo perceber isso a serviço dessa história que ele entregou lindamente. Ele é muito espontâneo e entende os códigos que a arte oferece para se criar”, elogiou Lázaro.
Sertão embrutecido
Filmado em Quixadá e em outras cidades do interior do Ceará, o filme cria um contraponto entre esse ambiente rígido do sertão com o desejo de liberdade que Gugu representa.
Não demora para que ele seja alvo das chacotas e mesmo de ataques mais agressivas de colegas de escola, principalmente de outros meninos que não sabem lidar com o diferente. Mas é na relação com o pai e com a avó que se travam as maiores contradições para o protagonista.
O personagem de Lázaro possui certa dualidade. Ele evita criar um vilão caricato, ao mesmo tempo que verbaliza claramente o desagrado e a vergonha que sente pelo comportamento do filho. Mesmo assim, ainda permanece ali, próximo do garoto.
“A minha primeira abordagem do personagem era fazer um homem rígido, duro, sem afetividade. Mas depois eu entendi que não era o melhor serviço que eu prestaria com esse personagem”, confidenciou o ator, destacando a importância dos ensaios para a mudança de perspectiva do personagem.
“Eu entendi que esse homem ama esse filho, mas pelo modo de vida dele, o que ele aprendeu, o que ele é, quem ele quer ser, tudo isso impede que ele ofereça o amor dele plenamente para essa criança”.
Por outro lado, é na presença da avó que ele pode se sentir inteiramente livre. Com mais uma atuação iluminada de Teca Pereira, é ela quem cria o menino, depois que a mãe da criança morreu e o pai constrói uma outra família com quem Gugu, aparentemente, não tem muita relação.
A matriarca não apenas aceita o jeito do neto, como também vive essa liberdade. Tem pinta de avó moderna que ainda namora por aí (especialmente com o personagem de Carlos Francisco), manda nudes pelo celular, anda de moto, fala palavrão e não tem filtros. Mas, acima de tudo, ama o neto do jeito que ele é. A demência que passa a acometê-la, no entanto, coloca em risco esse lugar seguro em que o garoto se refugiava.
Mirando no Oscar
Quando estreou no Festival de Berlim, Feito Pipa não parecia o filme mais forte para representar o Brasil no Oscar, mas acabou conquistando essa posição. A responsabilidade é grande porque o país vem de duas campanhas vitoriosas e consistentes nos últimos dois anos, com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que trouxe a estatueta para o Brasil.
“Eu estou animado com o Oscar, mas não só por seguir esse caminho dos outros filmes que já estiveram lá. Eu acho importante para mostrar ao mundo a qualidade do cinema que a gente faz, a diferença de histórias, de regiões, de sotaques”, pontuou o ator.
Feito Pipa tem um caráter realmente mais popular, o que pode ter pesado nessa decisão. Apesar de lidar com temas duros, a trama é envolvente, vai do riso às lágrimas com muita competência e naturalidade, ainda que não seja necessariamente instigante enquanto realização cinematográfica.
“O Brasil escolher esse filme é reconhecer sua qualidade e dar visibilidade a uma produção pequena, com uma história de qualidade. Minha expectativa é que o Oscar amplie o público dentro do Brasil”, arrematou o ator.
Feito Pipa (Brasil, 2026)
Direção: Allan Deberton
Roteiro: Camila Agustini e André Araujo
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 28/10/2026)
