Um veterano e experiente cineasta (Javier Bardem) convida sua filha (Victoria Luengo), atriz jovem de alguns poucos trabalhos nada marcantes, para estar em seu novo filme. Eles não se viam há treze anos, uma relação pai e filha não nutrida, nem mesmo à distância. As aparências iniciais de cordialidade e bom humor desabam após alguns minutos de conversa logo na primeira sequência do filme. Essa bem que poderia ser a sinopse de Valor Sentimental, de Joachim Trier, mas é O Ser Querido, do espanhol Rodrigo Sorogoyen.
Não deixa de ser curioso que, no intervalo de um ano, dois filmes de cineastas relevantes – ambos os longas estiveram na mostra competitiva do Festival de Cannes – reproduzem um mesmo tema com algumas semelhanças. Formalmente, no entanto, os dois filmes seguem por caminhos distintos e Sorogoyen possui firmeza para levar a jornada de reconciliação de seus personagens para um lugar muito próprio, ainda que sem o mesmo impacto emocional que seu irmão de coração.
O filme abre com esse reencontro entre os dois, o clima fica tenso em poucos minutos, mas nas cenas seguinte já encontramos a filha caracterizada como protagonista do filme que o diretor filma com rigidez, general na condução do set de filmagens, comportamento que todos os envolvidos na bem conhecem. A trama do filme se passa no deserto do Saara – antiga Colônia espanhola que guarda suas cicatrizes pela dominação imperialista, uma quase metáfora para aquilo que se dá entre hierarquias dentro da produção de um filme.
Digo quase porque o roteiro prenuncia uma dinâmica entre a história de pai e filha com a História geopolítica da região, mas logo perceberemos que importa mesmo à trama aquilo que se negocia diante da reaproximação entre os personagens no foro íntimo, só que dentro de um contexto profissional. Aqui, o pai é patrão e a filha é funcionária, ainda que reconhecida pela equipe como “filha do diretor”. Há privilégios nesse sentido, mas ele também faz questão de endurecer a relação justamente para não parecer favorecimento.
Há um frescor em O Ser Querido pela estrutura narrativa metalinguística que nos coloca naquele set de filmagens, na medida em que ele serve como campo de disputas (e de egos). Os melhores momentos do filme são esses em que pai e filha observam-se mutuamente e parecem descobrir algo sobre o outro ou, antes, intuem algumas coisas que foram perdidas no tempo por conta da separação.
Os piores momentos do filme, no entanto, são aqueles inevitáveis: quando as rusgas e os rancores escapam do comportamento e das falas dos personagens, e o roteiro não consegue dar profundidade aos dilemas e dores de cada um apenas porque ele se contenta com as brigas que surgem e terminam em nada, até que outra surja algumas cenas seguintes e assim por diante, até a chegada da grande sequência que implode muita coisa – não só para eles dois, mas para todos envolvidos nas filmagens. Esse é um momento crucial para a trama, e poderia ser um ponto de virada importante na condução dos conflitos íntimos dos dois, mas quando eles voltam a discutir, retomam discussões similares, com trocas de acusações e omissões previsíveis e sem grandes novidades. Sente-se que o filme gira ao redor de suas próprias limitações.
Os dois atores sustentam com determinação seus personagens, em especial Bardem que já possui toda a pinta de homem durão e intransigente. Seu cineasta impõe respeito, mas também está disposto a se abrir para a filha, oferecendo uma faceta sua mais . Luengo faz um papel mais difícil porque, apesar de aberta para o trabalho que aceitou fazer, aquela filha precisa se equilibrar entre a atriz competente e a jovem mulher que não vai dar o braço a torcer e simplesmente perdoar o pai pela ausência e negligência.
O Ser Querido (El Ser Querido, Espanha/França, 2026)
Direção: Rodrigo Sorogoyen
Roteiro: Isabel Peña e Rodrigo Sorogoyen