Olhar de Cinema: Vai e Vem

Não há nada de muito novo no recurso narrativo que se baseia na troca de cartas e/ou mensagens entre pessoas distanciadas. A ideia de um cinema confessional ou mesmo, na literatura, do constructo do conceito de “romance epistolar” (não necessariamente feito a partir de trocas de cartas, mas apenas na narrativa tomada a partir das missivas de alguém) já perpassa por tramas em que se dirigir ao outro para falar de si (e do mundo ao redor, também do seu interior) constitui um modo de embalar a narração. O longa de espírito experimental Vai e Vem, das realizadoras Chica Barbosa e Fernanda Pessoa, que abriu a programação do 11º Olhar de Cinema, revigora esse tipo de proposta de modo muito pessoal e inerente ao levar a cabo uma conversa que se dá através de vídeos-respostas documentais de uma para a outra.

A troca de mensagens aqui é o próprio filme, é disso que ele constituído em essência; portanto, algo muito mais “carnal” porque está na tessitura do filme. As diretoras, uma morando no Brasil e a outra, uma mexicano-brasileira, vivendo nos Estados Unidos, conversam através de vídeos que uma envia a outra, no que elas mesmas chamam de um “diálogo fílmico”. Há até mesmo certas regras preestabelecidas: elas deixam de lado as mensagens por escritas que poderiam ser enviadas por redes sociais e aplicativos para centralizar suas conversas em vídeos, no percurso de um ano, e que devem ser respondidas, com outro vídeo, no prazo de três semanas.

Há um desejo explícito em fazer desse “experimento” uma investigação política sobre o estado de coisas da sociedade de cada país, marcados pelo fenômeno contemporâneo de ascensão dos governos de extrema-direita com suas posturas conservadores, apoiados por boa parte das respectivas sociedades que os elegeram. O filme se faz, também, como forma de olhar para esse quadro social de aparente normalidade que subsidia o horror de uma política grotesca e desumana. Entender minimamente o Brasil de Bolsonaro e os Estados Unidos de Trump parece ser a lógica – mais que compreensiva – que guia muitos dos filmes feitos nesses países nos últimos anos – mesmo quando o intuito não é exatamente esse. Vai e Vem encara isso frontalmente, dentre tantas outras preocupações que rondam o pensamento e o fazer fílmico das realizadoras.

Mas há ainda um segundo desejo que é o de exercitar um olhar experimental na feitura dos vídeo-conversas que constitui o próprio tecido do filme – e esse movimento não deixa de ser também uma escolha política, ancorada em escolhas estéticas, ainda que a ação seja a de tatear em busca delas. A variedade de formatos e modos de elaboração audiovisual encontrados pelas realizadoras (que nada mais é do que uma maneira de lidar com a realidade circundante) indicam muito mais a vontade de experimentar do que necessariamente a criação de um modelo acabado e individualizado que indicaria a marca pessoal de cada uma – o que também não deixa de ser um contraponto à busca e endeusamento de uma suposta escritura autoral capaz de elevar o trabalho de um diretor de cinema.

Ambos os movimentos que o filme faz – de cunho temático e formal – estão mais do que bem postos na sua estrutura e na carta de intenções que se deixa explícita logo de início. Os resultados disso é que são difíceis de mensurar, tanto pela multiplicidade de questões envolvidas, quanto por essa maleabilidade do filme em testar tantas possibilidades narrativas. Do ponto de vista estético, o filme parece querer ser mais radical do que ele de fato é – dada a lista de diretoras que Chica e Fernanda apresentam como referências para a construção desse trabalho. Isso joga as expectativas lá para cima, e isso não é nada bom; não porque haja algum intuito de se igualar ao trabalho daquelas diretoras, mas porque isso fica muito demarcado enquanto norteador da realização.

O próprio movimento de vai-e-vem, que faz ramificar as ideias e os modos do discurso, contribui para certa irregularidade do filme, num fluxo até mesmo previsto, dada a própria natureza inventiva e circunstancial da obra. Por outro lado, o longa ganha em fluidez, uma vez que nunca sabemos o que vem a seguir, não é possível prever os próximos passos, enquanto boa parte das discussões políticas não escapam de certa crítica de viés esquerdista a que já estamos acostumados.

É também pertinente pensar nesse filme a partir da experiência que vivemos da pandemia e do isolamento social. As realizadoras fazem desse desejo de troca uma possibilidade de comunicação e interação (e, consequentemente, de criação artística), que resulta numa multiplicidade de caminhos e ideias para onde é possível ir e voltar.

Vai e Vem (Brasil, 2022)
Direção: Chica Barbosa e Fernanda Pessoa
Roteiro: Chica Barbosa e Fernanda Pessoa

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