Festival de Brasília: Xingu à Margem

O documentário Xingu à Margem abre com imagens institucionais da hidrelétrica de Belo Monte, construída próximo ao município de Altamira, no norte do Pará, e também resgatando a emblemática cena da indígena Tuíre Kayapó que enfrentou o então presidente da Eletronorte empunhando um facão que aproximava ameaçadoramente do rosto do homem que se mantinha impassível. Essa introdução talvez possa sugerir um filme que se debruce sobre a complexidade do caso, costurada em uma posição combativa e de enfrentamento, mas o caminho escolhido aqui é outro.

O diretores Wallace Nogueira – educador no projeto Vídeo nas Aldeias – e Arlete Juruna – sua aluna, moradora do local e idealizadora do recorte do filme – partem das vivências particulares de quem se atreveu a confrontar o sistema, mesmo tendo sido atropelado por ele, e que não teve escolha senão deixar suas terras para dar lugar ao empreendimento – ao futuro que se tornou tragédia e miséria para muitos desses ribeirinhos e indígenas.

Apesar de lidar com uma realidade que Juruna conhece bem e cuja inquietação gera o próprio escopo do longa documental, a trama não gira ao redor dela nem está figurado em primeira pessoa – ela, aliás, parece se colocar muito pouco na diegese do filme quando este deixa escapar a presença da equipe por trás das câmeras e sua relação de proximidade e integração com os retratados em cena.

Isso porque Xingu à Margem encontra em dona Raimunda uma grande figura que funciona como porta-voz de toda aquela situação – não como cargo institucionalizado, mas antes como indivíduo através do qual é possível extrair doses de realidade que não estão registradas em nenhum documento oficial. Ela solta o verbo e não teme se expor, fala da sua situação e dos seus próximos quando o silêncio passou a ser a escolha de muitos deles diante da opressão vivida. Ribeirinha que perdeu a casa e teve sua paz ceifada, dona Raimunda segue na luta por uma moradia digna e uma vida honrada em meios às suas raízes – e agora em meio a ruínas também. Denuncia também o jogo sujo dos poderosos que alteraram drasticamente as relações e a convivência daqueles povos, antes harmoniosas.

O filme é um retrato duro dessa situação e deixa um gosto amargo no público, apesar da resiliência que faz parte da postura combativa da mulher. Sua presença no filme é marcante porque ela não apenas desenha o estado de miséria e desolação em que vive, mas também se posiciona e tem plena consciência do que isso significa, tanto em termos de denúncia do que precisa ser dito e revelado ao mundo, quanto em termos de risco que ela sabe correr por não esconder suas opiniões.

Daí surge o entendimento de que, se o filme não possui uma estrutura narrativa que aposte na dureza de seu registro, como prenunciado no início, é através dessa personagem que o sentido de enfrentamento e combate se dão – são as armas possíveis, mesmo que a batalha desenhada aqui seja a de Davi contra Golias. Por outro lado, o filme não deixa de ser um tanto reiterativo nas denúncias que faz, pela própria demanda que recai sobre dona Raimunda e sua centralidade na trama. De qualquer forma, é um modo também de se posicionar diante da tragédia: repetindo suas mazelas que já se repetem, por si só, em outras situações e casos similares espalhados pelo Brasil e no mundo.

Xingu à Margem (Brasil, 2025)
Direção: Wallace Nogueira e Arlete Juruna
Roteiro: Wallace Nogueira

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