Festival de Brasília: Quatro Meninas

Narrativas contra-hegemônicas são sempre bem-vindas no cinema. Contar histórias e a História do Brasil sobre o ponto de vista daqueles que foram apagados e silenciados, subalternizados nos enredos “oficiais”, impedidos de falar por si próprios, é um gesto que precisamos reconhecer como legítimo e mesmo necessário – necessário aqui não como vontade particular, mas como contrafluxo de um processo histórico de apagamento que precisa ser barrado. No entanto, tal gesto não garante por si só a validade do discurso, para além da tomada de posição.

Quatro Meninas, da mineira Karen Suzane, é um bom exemplo disso, na medida em que possui intenções nobres, mas acaba construindo sua narrativa em bases rasas e frágeis. Estamos no Brasil colonial e escravocrata, na zona rural do Rio de Janeiro, em um reformatório para moças que acolhe as filhas das sinhás, enquanto as serventes negras trabalham dia e noite em prol do bem-estar das moradoras da casa-grande. Diante de um episódio de opressão mais violento sofrido por uma delas, quatro dessas garotas negras resolvem fugir dali, não sem antes uma surpresa: quatro das sinhás querem se juntar à empreitada também em fuga.

Há uma clara intenção de gerar um espelhamento aqui, que está posto inclusive no título do filme, mas mais intrinsecamente na própria dimensão opressiva que essas mulheres vivem, em contextos distintos. As tensões raciais e de hierarquia social, na sua sanha segregacionista, esbarra na necessidade de união diante das tensões de gênero que acabam ajuntando as personagens, ou pelos menos fazendo com que as lutas de ambos os grupos se interseccionem em algum sentido – ou pelo menos na maneira como elas negociam essa escapada em conjunto.

Dito assim pode-se supor que o filme trabalhe por vias de uma complementariedade de lutas identitárias representadas por essas mulheres, mas evidente está que são sobre as meninas negras que recai o maior foco de atenção do filme, é naquele grupo que está a guia mestra que rege a narrativa. É aí que encontramos o olhar não-hegemônico que costura uma trama e pontos de vista a que a historiografia clássica e consequentemente o cinema brasileiro pouco se debruçou – algo que tem mudado nos últimos anos com a busca por diversidade e descentralização da produção nacional.

No entanto, ao criar esse jogo duplo de interações, tensões e acordos tácitos que precisam ser selados entre ambos os grupos, o filme cai em uma armadilha da qual ele se torna refém: ao amparar sua trama nos conflitos das meninas negras – e são quatro personagens com intenções, pensamentos e desejos distintos que precisam ser trabalhados no roteiro –, os conflitos das meninas brancas, dos quais a trama se beneficia para gerar seu próprio universo de atuação, é tão superficial que faz o todo perder credibilidade.

Há algo de muito frágil na decisão dessas mulheres, do alto de seus privilégios, em abandonar as regalias do status social que elas possuem apenas porque uma delas está sendo obrigada a se casar com um pretendente indesejado. Não que isso seja menor ou um fardo que elas têm de suportar (apenas porque são brancas), mas porque a trama trabalha de modo muito inesperada e rasteira essa escolha, soando mais como capricho do roteiro.

Isso é apenas um exemplo – mesmo que um definidor da própria narrativa de Quatro Meninas – que ilustra a jogada quase farsesca que o filme precisa dar em prol da concretização dos embates entre as personagens. E para um filme que lida com questões tão importantes calcadas na realidade histórica brasileira, apostando na reversão do olhar que está no seu cerne, a dissimulação dos seus enredos e engrenagens pouco ajuda a compor um filme que se sustente como narrativa de contraposição.

Quatro Meninas (Brasil, 2025)
Direção: Karen Suzane
Roteiro: Clara Ferrer

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