Um primeiro grande mérito de Corpo da Paz: ser um filme sobre o período ditatorial no Brasil sem o parecer. Filmado num preto-e-branco puxado para o sépia e ambientado no interior da Paraíba, estado natal do diretor Torquato Joel, o filme possui décor e ambientação melancólicos, funcionam como um tipo de deslocamento sobre o que poderia ser uma narrativa policial ou que figurasse aquilo que entendemos como um “filme sobre Ditadura”.
Mais que isso, é através do olhar infantil que adentramos a este universo bucólico do interior, longe das disputas políticas marcadas e da luta armada propriamente. O filme não é veículo político direto sobre o tema, mas é sim atravessado pelo fantasma da Ditadura que paira no ar. Teobaldo (Giovanni Sousa) vive em um mundo só seu, como é próprio das crianças, mas vislumbramos o movimento dos adultos e suas posições sociais e políticas – demarcadamente o conservadorismo paterno, enquanto a criança experimenta formas pouco usuais de contato com a sexualidade incipiente.
Além dos pais do garoto e de seu irmão mais velho (esse sim, quando aparece, um típico personagem que encarna o idealismo juvenil contra as opressões do Estado brasileiro), a família recebe em sua casa uma agente norte-americano, Greg (Vinicius Guedes), aparentemente um pesquisador que está ali interessado em investigar um tipo muito específico de algodão que nasce na região.
Ele é, na verdade, um soldado a mando do governo estadunidense que se infiltrava nos países ditos subdesenvolvidos a fim de espionar e averiguar a incidência de ideologias contrárias ao capitalismo ou ideias afins, no que passou a ser conhecido justamente como Corpo da Paz. Curioso pensar que esse programa oficialesco do império do Norte usava como pretexto a união e amizade entre os povos para justificar essa entrada, e nessa jogada dupla o próprio filme costura sua carta de intenções fazendo os personagens acolherem o estrangeiro, mas também observando-o com desconfiança.
Teobaldo ao mesmo tempo que passa a nutrir certo interesse por Greg, também vai chegar a um ponto de rechaça-lo, ainda que seus sentimentos sejam pouco claros para o espectador – também como forma de ilustrar a inconstância daquilo que ainda não tomou forma definitiva. Não ajuda também que a narrativa do filme abandone esse olhar infantil para investir em outros pontos de vista, o que faz a trama de Corpo da Paz se ramificar de modo um tanto desordenado, especialmente na sua segunda metade.
Os elementos do filme estão todos ali, seus personagens se desenham, mesmo na ambiguidade, de modo muito evidente na tela, sem grandes mistérios. Na verdade, o filme nos dá elementos para que possamos julgá-los, moral ou politicamente, e isso é outra qualidade do longa. Trata-se de uma obra não necessariamente aberta, mas que convida à intervenção do olhar do espectador. Certamente que isso pode também ser lido como uma estratégia para se esquivar de uma tomada de posição mais assertiva. Porém, por outro lado, contribui para a escrita de uma visualidade que trabalha no terreno arenoso da subjetividade, sem ser omisso.
Corpo da Paz (Brasil, 2025)
Direção: Torquato Joel
Roteiro: Torquato Joel