Futuro Futuro

Memórias do amanhã*

Foi apenas no derradeiro dia de competição do Festival da Brasília, em 2025, que o filme vencedor se apresentou ao público. Futuro Futuro, de Davi Pretto, chegou como um objeto estranho, espécie de ficção científica distópica e especulativa que contrapõe grupos sociais distintos, uma sociedade marginalizada e altamente vigiada, o medo de uma catástrofe natural iminente, tudo isso permeado pelo uso da inteligência artificial.

Realizado no Rio Grande do Sul pelo diretor Davi Pretto, o longa chega agora ao circuito comercial. Foi filmado no período anterior e posterior às enchentes que assolaram o estado em 2024. Aquilo que já se apontava como tragédia ambiental anunciada na história, ganha contornos outros no decorrer do filme.

Na trama, conhecemos K (Zé Maria Pescador), um homem com um distúrbio neurológico que o fez perder a memória. Ele chega à periferia de uma grande cidade onde um grupo, com os mesmos problemas de amnésia, se reúne para tentar reaver as lembranças do passado que foram perdidas.

Chefiada por Joana (Carlota Joaquina), o grupo utiliza uma inovadora ferramenta de inteligência artificial, chamada Oráculo, que investiga a mentes do usuário e busca resgatar as memórias mais profundas dos indivíduos.

Ao mesmo tempo, esse grupo vive em uma área periférica, longe da parcela rica da população que mora em uma região central inacessível e paradisíaca. Como nas melhores narrativas distópicas, as castas sociais são separadas territorialmente, ampliando a cisão entre desfavorecidos e abastados.

K acaba se aproximando de Silvio (João Carlos Castanha), um homem mais velho com quem ele compartilha desejos e afetos, além de um casebre com poucos recursos. É esse personagem que vê uma cicatriz no ombro do outro em formato da letra K e assim o batiza.

O saque constante feito por forças policiais sobre a comunidade faz com que o protagonista busque romper com aquele ciclo de opressão. O filme investe, portanto, nos elementos do sci-fi, mas faz isso de maneira mais especulativa. Nesse caso, está mais próximo da literatura de um William Gibson e de um Philip K. Dick (de onde pode ter surgido a inspiração para o nome do personagem, se não for espelhado no K de O Processo, de Franz Kafka).

Cenas furtivas

As imagens criadas por IA não estão presentes apenas no imaginário dos personagens que utilizam o estranho dispositivo tecnológico. O próprio cineasta investiu na criação dessas imagens criadas por computador para dar conta dos lampejos de memória que invadem a percepção de K no decorrer do filme.

Tais imagens se passam justamente na parte abastada da cidade. Edifícios chiques e grandiosos, paisagens urbanas bem planejadas, com famílias felizes – e burguesas – passeando e vivendo em uma realidade aparentemente pacífica e próspera. Tudo isso com um filtro avermelhado que parece tingir de sangue esses clarões de futuro – ou será de passado?

Nesse jogo de imaginação e recriação, o personagem tenta entender de onde veio e por que essas cenas o atravessam. Mais do que isso, o filme nos força a pensar se essas imagens são fruto de vivências reais ou apenas projeções daquilo que imaginamos no nosso passado ou então daquilo que queremos para o futuro.

As imagens que chegam a K possuem um verniz asséptico, quase como se ele vivesse em um comercial de margarina onde tudo é limpo, alegre e vivaz, sem ruídos ou desarmonia. Sendo um dispositivo criado para os mais ricos – o grupo inicial possui modelos mais baratos e antigos –, há de se pensar em que medida esse aparato não vende um conforto apenas momentâneo e fugaz.

Ao integrar essas imagens como parte da própria tessitura do filme, o cineasta propõe uma reflexão sobre o uso desse tipo de conteúdo no cinema e no audiovisual, apostando aqui em uma saída criativa e original integrada à narrativa da trama. Mas também coloca em questão a fragilidade da mente humana diante das possibilidades de encantamento pela produção de imagens cada vez mais acessíveis, porém artificiais e distorcidas da realidade.

Resta saber em que medida essas possibilidades são realmente positivas enquanto artefato de ampliação da percepção humana ou apenas recaem no simulacro das imagens vazias, uma vez que o uso da inteligência artificial tem sido cada vez mais presente na sociedade, como um caminho sem volta.

Apocalipse vermelho

Pretto, que já havia trabalhado com o cinema de gênero antes – dirigiu o longa de terror O Continente (2024) –, investe nas tramas da fantasia mais uma vez, com uma roupagem mais crítica. Sobretudo, faz um filme que toca em temas contemporâneos, apesar de usar uma estrutura narrativa já clássica das distopias.

A partir de certo ponto da trama, K adentra esse mundo da classe mais rica e sua relação com as imagens deixa de ser apenas como reflexo da memória, mas como vivência. Ali, encontra uma mulher (Clara Choveaux) e um homem (Higor Campagnaro), personagens misteriosos que acrescentam outras camadas à sua história.

Mais que isso, eles embaralham as percepções de K e também as do próprio espectador, que especula sobre a relação deles com o protagonista. Surge também uma conversa sobre uma catástrofe iminente que está prestes a destruir aquele mundo de sonhos, o que coloca os personagens entre a reflexão sobre a vida e a vontade de aproveitar intensamente os últimos instantes da humanidade.

Nesse momento, Futuro Futuro se coloca em uma construção narrativa mais aberta, ampliando as possibilidades de interpretação. Fica, no entanto, a ideia de que as imagens, sejam elas reais ou criadas por IA, são capazes de nos assombrar, mas também de ressignificar a trajetória humana.

Futuro Futuro (Idem, Brasil, 2025)
Direção: Davi Pretto
Roteiro: Davi Pretto

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 26/07/2026)

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