Diamante raro*
Há exatos 50 anos, Xica da Silva causava um furor no cinema brasileiro. Além de trazer uma atuação hipnótica de Zezé Motta, que veria sua carreira deslanchar a partir de então, o filme rompeu barreiras ao dar protagonismo a uma mulher negra e discutir a representação social e sexual de uma escravizada, tudo isso com um tom alegórico.
O filme retorna agora aos cinemas em cópia restaurada, através do projeto Vitrine Petrobrás, e reacende os debates em torno da obra. Integrante da geração do Cinema Novo, o diretor, Cacá Diegues, morto ano passado, fez da obra uma alegoria carnavalesca sobre a colonização e as estruturas do poder, rompidas por uma mulher que ousou enfrentar a sociedade racista e patriarcal de seu tempo.
Acima de tudo, Xica da Silva apresentou ao mundo o talento de Zezé Motta. A atriz conversou com ATARDE remotamente para abordar a atualidade da obra. “Para mim, Xica da Silva permanece atual porque nos convida a olhar para a nossa história sem simplificações. Ele mostra um Brasil cheio de contradições, e entender essas contradições continua sendo fundamental para compreendermos o país em que vivemos hoje”.
O filme retrata a história verídica de Francisca da Silva de Oliveira, uma escravizada que viveu em meados do século XVIII, durante a exploração de diamantes no Arraial do Tijuco (atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais), e de seu relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas). Foi alforriada por ele e se tornou uma rica senhora que esbanjava sensualidade, altivez e atrevimento, desafiando as convenções sociais da época. De serva, passa a ser patroa, e das mais exigentes.
“Eu nunca quis fazer uma personagem caricata”, explicou Motta. “Minha preocupação era encontrar a humanidade daquela mulher. A Xica era inteligente, irreverente, sedutora, estrategista e, acima de tudo, alguém que entendia muito bem o mundo em que vivia. Ela sabia ler as pessoas e usar isso a seu favor”.
Enquanto o contratador lidava com a corrupção local dos representantes da coroa portuguesa, que faziam de tudo para esconder os diamantes encontrados e não pagar os impostos devidos a Portugal, Xica vivia uma rotina de luxo, com roupas extravagantes, comida à vontade e um séquito de serviçais que faziam todas as suas vontades.
Presença de cena
Apresentado agora em cópia de alta definição (4K), o filme revela todo o seu esplendor de reconstituição de época. Em um momento em que o Cinema Novo já vivia uma fase tardia e um tanto desgastada, era preciso apostar na teatralização e simbologias, sem deixar de abordar a realidade do país, mesmo que através de tramas do passado.
Mas a grande força de Xica da Silva reside mesmo na atuação deslumbrante da atriz principal e da sua entrega de corpo e alma à personagem. Motta contou que quando soube da realização do filme, ligou para a produção e se ofereceu para fazer um teste de elenco.
“Fiz a cena em que a Xica tenta entrar na igreja dos brancos e é impedida. Dei o melhor de mim, mas não tive certeza de ter me saído bem. Fiz minhas malas e fui para Salvador filmar A Força de Xangô, do Iberê Cavalcanti. Todo dia ligava para o Rio a fim de saber o resultado do teste”, contou a atriz.
Ela, que não era uma atriz muito conhecida na época e tinha feito apenas papéis pequenos no cinema, não tinha ideia do quanto aquele papel mudaria a sua vida. E a escolha não poderia ter sido mais acertada. Motta impõe uma presença de cena impressionante em tela, tudo que a personagem precisava para demarcar a sua postura de tigresa diante dos desmandos dos homens brancos.
“Os trejeitos, o jeito de falar, o olhar e a postura foram surgindo aos poucos, durante os ensaios e as filmagens. Eu observava muito as relações de poder entre os personagens e procurava construir uma mulher que ocupasse os espaços com segurança, sem perder a espontaneidade e o humor”, pontuou Motta.
Patrulha e polêmicas
Apesar do grande sucesso de público (foram mais de 3 milhões de espectadores nos cinema em 1976) e do reconhecimento nos festivais (venceu os prêmios de Melhor Filme, Direção e Atriz no Festival de Brasília), Xica da Silva também enfrentou duras críticas quando lançado.
As questões de raça e gênero pesaram nas avaliações, inclusive por parte do movimento negro. A hipersexualização com que ela era retratada e as cenas de nudez causaram muitas polêmicas, fazendo com que o diretor cunhasse o termo “patrulha ideológica” para denunciar o policiamento de certos intelectuais sobre a produção artística.
“Eu considero essas críticas legítimas e importantes. É claro que hoje podemos discutir a forma como esse corpo foi filmado e como determinadas escolhas podem ser interpretadas. Esse debate é saudável e necessário”, ponderou Motta.
“Mas eu também acho importante não perder de vista a dimensão histórica daquela obra. A Xica não era uma personagem passiva. Ela era inteligente, desafiadora, irreverente e fazia da sua presença uma forma de enfrentar uma estrutura de poder profundamente racista e desigual”.
Por fim, a atriz revelou as inspirações para criar a personagem: “Eu queria imaginar aquela mulher para além da figura histórica. Não queria interpretar um símbolo, mas uma pessoa de carne e osso, cheia de desejos, inteligência, contradições e coragem. É essa humanidade que faz com que a Xica continue tocando tantas pessoas, cinquenta anos depois”. E sua genialidade na criação da personagem é o que faz de Zezé Motta um diamante raro no cinema brasileiro.
Xica da Silva (Brasil, 1976)
Direção: Carlos Diegues
Roteiro: Carlos Diegues e Antonio Callado
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 18/07/2026)
