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Nosso Segredo / Entrevista com Grace Passô

Ausências sentidas*

Existem muitas maneiras de se lidar com a morte de alguém próximo. Em Nosso Segredo, uma família negra numerosa experimenta a ausência repentina de um patriarca na medida em que tenta seguir o curso da vida, ainda que algo pareça fora de lugar, inconcluso. Não sabemos exatamente quanto tempo se passou desde a morte, nem seus motivos, mas já os encontramos imersos nos afazeres do dia a dia, ainda que uma tristeza se faça presente ali.

Mais do isso, há muito de não-dito e de incômodo nas relações que se querem apaziguadoras, mas não conseguem esconder o pesar que pesa no ambiente. É como um mistério que paira no ar, sentido não apenas pelos personagens, mas também pelo espectador.

Mistério esse que vai ganhar uma corporeidade inimaginável na última parte do filme, atravessado por circunstâncias estranhas que acontecem naquela casa. Há sons estrondosos que se ouvem do sótão no andar de cima, uma estranha lama que começa a escorrer em alguns pontos da parede. Tudo isso funciona para criar uma atmosfera de estranheza, como se todos escondessem algo.

Grace Passô é a maestrina dessa ópera de dores íntimas que parecem reverberar pelos cantos da casa, apostando em uma narrativa pouco convencional. Atriz e dramaturga de sucesso, ela opta por assumir a cadeira da direção e não à frente das câmeras – como fez no longa anterior que dirigiu em parceria com Ricardo Alves Jr., Vaga Carne.

Aqui, ela adapta uma peça de teatro de sua autoria, intitulada Amores Surdos, que ganha outra roupagem enquanto audiovisual. “O cinema me abre possibilidades de experimentar outras dimensões da linguagem, é uma outra forma de materializar as narrativas. Eu sou uma pessoa da experimentação, gosto de inventar coisas novas. Eu busquei acionar a sensibilidade de outros modos”, afirmou a diretora em conversa com A TARDE.

E esse modo encontrado pela diretora não poderia ser mais inusitado. Nosso Segredo é repleto de pontas soltas e perguntas sem respostas óbvias. Não é um filme que chega mastigado para o espectador. Pelo contrário, ele convoca quem assiste para completar as lacunas e interpretar as situações que vão se desenhando no seio daquela família.

O resultado poderia ser algo hermético e complexo, mas Passô transforma tudo isso em poesia do cotidiano, especialmente porque os personagens, cada a um a seu modo, funcionam muito bem como retrato de uma família em crise, ainda que unida por laços de afeto.

Não à-toa, o filme acaba de sair do Festival de Gramado, que terminou no último fim de semana, como o grande vencedor da Mostra Competitiva, conquistando o kikito de Melhor Filme, e ainda os prêmios de Fotografia (Wilssa Esser) e Direção de Arte (Lucas Osório).

Narrativa lacunar

“O que você tem esquecido no meio da rua? O que você tem largado na faixa de pedestre?”. As perguntas são desferidas assim, casualmente, pelo passageiro do táxi que Gilson (Robert Frank) dirige. A conversa prosaica que eles estavam tendo termina com essas indagações misteriosas, no que parece um dia normal.

Acontece que esse passageiro é interpretado por ninguém menos que seu Mateus Aleluia. O cantor e compositor baiano, mestre do icônico grupo Ticoãs, dá vida a um homem aparentemente comum, mas cheio de sapiência e ancestralidade – não é por acaso que ele está escalado para essa abertura que tanto parece apontar os caminhos conceituais do filme.

Essa cena abre o longa e parece sintetizar todo um sentido de investigação interior que todos os personagens enlutados precisam empreender em busca de um mínimo de conforto. “A saudade é uma herança nossa” é outra frase que o misterioso passageiro deixa de presente para o motorista e para o espectador.

Gilson é um dos filhos crescidos da matriarca Suely (Ju Colombo), que se somam aos adolescentes Grazi (Jessica Gaspar) e Guto (Flip) e ao pequeno Tutu (Efraim Santos) como centro familiar atingido pela morte.

“No nosso primeiro encontro com os atores, nós compartilhamos histórias particulares. Temos uma família negra, a maioria dos atores são negros, e a gente está falando de luto, ou seja, de coisas que todo mundo de alguma forma já passou na vida. Então começamos compartilhando nossos próprios segredos”, revelou a atriz.

Segundo Passô, esse foi um passo fundamental para que os atores entrassem no filme e alcançasse certo tom daquilo que era dito e o que não era dito no filme. “Essa medida foi amplamente perseguida por nós. Tudo foi muito minimamente trabalhado porque eu sabia que esse tom ia nascer com certa precisão através das atuações”, complementou.

O conjunto dos atores trabalha finamente nessa linha dos mistérios e das lacunas que o filme oferece. Um destaque importante é para o pequeno Tutu, uma criança de seis anos que se vê envolto com as noções de morte e ausência, mas parece trafegar com mais ludicidade por aquele ambiente.

É ele, aliás, que parece abrir uma porta para algo que se apresenta fora do plano realista, algo que o filme desenha por toda a sua narrativa, mas que explode de fato na parte final. Nada parece preparar o espectador para o clímax do filme, tão potente na sua expressão de fantasia e metáforas possíveis sobre o luto, mas sobretudo sobre a fagulha de vida e memória que perpassa pela vida daquela família negra.

Nosso Segredo (Brasil/Portugal, 2026)
Direção: Grace Passô
Roteiro: Grace Passô

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 29/08/2026)

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