Roseiras murchas*
Jack (Jamie Bell) resolve apresentar sua nova namorada à família burguesa. Ele ainda mora com o pai cego, os dois irmãos e uma irmã, todos ricos, mimados e esquisitos à sua maneira. Durante o jantar, o pai pede que a filha descreva os seios da namorada do filho, o que notadamente a constrange, mas parece divertir os demais irmãos do rapaz.
Esse é apenas um exemplo de situações desconfortáveis e esdrúxulas que se espalham no decorrer de Rosebush Pruning, filme de produção multi estrangeira dirigido pelo cineasta brasileiro Karim Aïnouz. Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim, no início do ano, o filme possui elenco estelar que compõe uma família disfuncional.
Diferente de qualquer disfuncionalidade de qualquer família média, o filme ataca claramente o topo da pirâmide social: os super milionários com seus privilégios de classe e raça, apostando em um retrato sem sutilezas e com boas doses de caricatura sobre as vicissitudes dessa high society abastada e apática.
Os personagens são todos amorais e odiosos, com os quais é possível antagonizar sem piedade. O filme até que tenta fazer um estudo desses garotos afetados por um núcleo familiar desarmônico, mas é muito difícil criar algum tipo de empatia por eles, mesmo que pela via da lamentação. Eles sempre poderiam ser mais do que sua fútil fachada apresenta.
Ed (Callum Turner) é o irmão que narra a história e poderia ser o ponto de vista lúcido entre todos ali. Porém, sua percepção mais aguçada e sua curiosidade escondem um interesse sexual e doentio por seus irmãos, também por homens mais velhos e uma relação de mero consumo e ostentação pelo mundo da moda.
A irmã (Riley Keough) poderia ser o elo frágil, única mulher da família depois que a mãe (Pamela Anderson) morreu, supostamente devorada por lobos ferozes das matas ao redor da menção – pelo menos, essa é a versão que o pai conta. Mas a moça vai se mostrando não apenas cúmplice das bizarrices da família, bem como perigosa no seu descontrole emocional, sempre a um fio do colapso, caso seja contrariada.
O irmão mais novo (Lukas Gage) é o mais desencontrado. Veste-se de mulher, tem saúde frágil e acaba sendo o mais manipulado nas mãos dos demais. Jack, nesse movimento de encontrar uma companheira e ensaiar sair de casa, parece o mais centrado e amoroso, mas também esconde suas estranhas taras.
Ascendência grega
Nascido no Ceará e tendo iniciado sua carreira no Brasil, onde fez filme magistrais como O Céu de Suely (2006) e Madame Satã (2002), Aïnouz vive hoje na Alemanha. Volta e meia retorna ao Brasil para filmar tramas brasileiras, como é o caso do recente Motel Destino (2024).
A carreira internacional dele tem rendido frutos bons, como é o caso do pouco visto, mas competente, longa de época O Jogo da Rainha (2023), e agora esse tiro no pé que é Rosebush Pruning. Há alguma tentativa de conferir à trama uma condução sensual que torne aquele jogo de falsidades e aparências mais arriscadamente atrativo, mas essa mágica tropical Aïnouz não consegue operar.
Talvez porque um calor tropical não caiba ali, nem parece haver espaço para um bom melodrama familiar. Os personagens, na sua composição um tanto oca e fria, deixam vazar um tipo de pulsão sexual que é mais doentia do que emanação natural das energias do corpo. Eles são desenhados como pervertidos sexuais apenas para sublinhar o desvio moral de suas personalidades.
Porém, essa responsabilidade não é da direção em si, antes ela tem uma origem bem mais facilmente rastreável: o roteirista grego Efthimis Filippou, que escreveu boa parte dos filmes de Yorgos Lanthimos. Ele vem construindo uma tradição que explora a bizarria e o absurdo como matéria-prima das narrativas, desaguando também aqui.
Em qual outra cinematografia recente um pai (Tracy Letts) estimularia os filhos a darem animais abatidos (comprados em frigorífero) de alimento para os lobos selvagens que mataram sua mãe como uma espécie de ritual e modo de apaziguar a sanha assassina dos animais e alimentar um desejo?
Rosebush Pruning alia-se a um tipo de estética da crueldade e do choque que tem feito muito sucesso no cinema contemporâneo (para além do Lanthimos, podemos citar outros adeptos como Gaspar Noé, Michel Franco, Ruben Östlund). É como se as crianças de Dente Canino, filme seminal da dupla Lanthimos/Filippou, tivessem crescido e se tornado os filhos dessa família aqui.
Lugar de superioridade
O maior problema de Rosebush Puning, porém, nem é esse retrato cru e degradante que se faz dos mais ricos – em certa medida, esse é um lugar muito comum quando se quer criticar os mais abastados. Não há novidade nenhuma nisso. O problema é a posição de superioridade moral que o filme assume a fim de olhar para esse microcosmo.
Ao ridicularizar e denunciar a futilidade autodestruidora dessa bolha milionária, o filme se coloca – e provoca que o espectador também se coloque – no lado oposto aos personagens. E como eles são desenhados como perversos, violentos e degradantes (diferente de nós que não gozamos daqueles privilégios), o olhar é de puro desprezo por aqueles sujeitos.
Assim, qualquer coisa de ruim pode acontecer com eles porque o espectador vai se sentir bem e regozijado em vê-los se dando mal. O filme vende um suposto bem-estar que reside na desgraça alheia, acompanhado de uma espécie de revanche de classe um tanto pueril porque se sustenta apenas pela caricatura do lado de lá, e deixa de fazer algum tipo de reflexão séria e mais precisa sobre o que move esses ricaços.
Sendo o elemento externo que adentra aquele universo de perversão, Martha (Elle Fanning), a namorada de Jack, poderia ser (ela também surge como promessa) o ponto de vista ajuizador da trama. No entanto, na cartada final do filme, absurda e sem nexo, ela também coloca suas mangas de fora, em um desfecho totalmente desproposital. Aïnouz tentou conferir certa dignidade a esse circo de horrores, mas não percebeu que essas flores já nasceram murchas.
Rosebush Pruning (Reino Unido/EUA/Canadá/Espanha/Itália/Alemanha, 2026)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Efthimis Filippou
*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 18/10/2026)
